Protagonismo no ano novo
A necessidade de lidar com a alternância sugere a essência vivificadora do ser, porquanto o percurso temporal delimita a tríade “passado, presente e futuro”. A consciência humana orbita na embreagem cronotópica, de sorte que o sujeito possa cindir determinado tempo e, concomitantemente, participar de um “antes, durante e depois”. O Criador, no Gênesis, demonstrou a importância da sucessão diária, uma vez que os períodos propiciam a arte, enquanto atuação. Cada advento expõe a identidade e a criação do ser atuante.
Em Roma, o nome “janeiro” foi atribuído ao primeiro mês do ano, em homenagem a Jano (Janus) – deus dos inícios e fins dos tempos. O mais curioso é o fato de Jano possuir duas faces, que simbolizam o olhar ao passado e ao futuro. A figura desse deus ilustra o conflito humano e possíveis decisões, por meio da elucidação de dualidades: entrada e saída, amor e ódio, paz e guerra, etc. Dessa forma, a novidade está no processo de alternância e ver como o indivíduo lida com os sentimentos para dar origem às passagens.
Em 1977, no Livro “Discurso de Primavera e Algumas Sombras”, Carlos Drummond de Andrade escreveu o Poema “Receita de Ano Novo”, no qual a poética justifica a importância do “Ano Novo sem comparação com o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido)”. Apesar de a receita possuir o modo de preparo cristalizado, entrega-se a importância das emoções, ou seja, o combustível gerador das eventualidades, que serão proporcionadas. O poeta atesta que são “sementinhas do vir-a-ser” – a profecia e seu cumprimento.
Esperar um novo tempo é “não fazer lista de boas intenções, para arquivá-las na gaveta”. Há a necessidade de estar claro que a benevolência é a chave do sucesso, tendo em vista a amortização dos sentimentos mórbidos. Assim, a gaveta simboliza as ações planejadas, contudo não desempenhadas. O poeta, ainda, destaca que “não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas”, em virtude de o passado visitar o presente e atormentar o ser – “nem [...] acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem”, pois a fé temporal poderá ser malograda pelas peripécias atuantes.
Drummond prossegue com os ingredientes da receita: “começando pelo direito augusto de viver”. O caráter divino é apregoado de modo contínuo, já que a vida é tecida em pleno cotidiano. Entregar os dias ao acaso é um descuido das emoções oníricas, pois o direito ao sonho é garantia da vida – “você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo”. O vocativo “meu caro”, além de fazer a quebra no enunciado, engrandece o papel de cada um, como Raul Seixas chamaria o processo de “metamorfose ambulante”.
Carlos Drummond de Andrade, no desfecho do poema, dispara: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. A conquista da felicidade estará quando exercermos o protagonismo dos anos vindouros, uma vez que nossa história não termina aqui. Feliz 2026, com muita prosperidade!
Imagem: Jano, busto nos Museus Vaticanos
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