Processos existenciais – estabilidade, instabilidade e restabelecer

A linguagem poética propicia o discurso religioso como um retorno à esfera mítica do verbo, porquanto abarca o elo – produto complexo regulado pelo discurso movente. Daí a experiência poética sugerir sentidos nostálgicos por intermédio de elementos sagrados, visto que expressam a reintegração do empirismo e resgatam imagens identitárias. O eu lírico objetiva reencantar o cronotopo (tempo e espaço), à luz do pensamento mítico e religioso, porque consiste em legitimar uma identidade vocal e intermediar a essência da vida e da morte. A relação intertextual exemplifica o manejo do poeta com a continuidade da existência, que se perfaz colhendo traços pertinentes da historicidade, em processos de ressignificação discursiva.

Em 1934, Murilo Mendes publicou o poema “Novíssimo Job”, uma alusão ao personagem bíblico, Jó, do Velho Testamento. O protótipo cristão traça retalhos do conflito entre perspectivas e realidade: “Eu fui criado à tua imagem e semelhança”. Os vestígios criativos designam, metaforicamente, as imagens constituintes de um suplício contundente. “Ou por que não me fizeste morrer no ventre de minha mãe?”. O sofrimento enfermiço é regulado pelo “memento mori” (lembra-te de que morres), cujo foco acopla vida e morte, na perspectiva de modificação cronotópica. A menção ao ventre materno reflete a transitoriedade, pois o retorno à inexistência consagra a identidade já imaginada pelo eu lírico. O novíssimo Jó registra um futuro-anterior.

A aproximação temporal consta a sobreposição imagética. “Eu já era, desde cedo, inconformado e triste”. A omissão ao advérbio “hoje”, contrário ao “cedo”, convida o leitor à perspectiva de um renascimento, que surge do futuro ao passado. Os verbos, no futuro do pretérito, enfatizam o retorno memorialístico de um sujeito reflexível. “Por que me deste passado, presente e futuro?”. As instâncias temporais fazem referência aos amigos de Jó, a saber: Elifaz, Bildade e Zofar. Os significados desses nomes são ouro (brilho do nascimento), confusão (adversidades da vida) e pássaro (transcendência – da morte à ressurreição). Na consulta à poética bíblica, o eu referenciador imprime a imagem de perseverante e resiliente – “paciência de Jó”.

Por desdobramento, os contratempos impulsionam o caos inexorável, de sorte que o indivíduo é conduzido à figura de uma potência reparadora. Em um triplo movimento – estabilidade, instabilidade e restabelecer –, acontece a operação nostálgica, uma vez que os flashbacks sinalizam a interioridade, com a função de abertura e/ou desfecho da vida sofrente. Com efeito, a cristalização do padecimento provoca a epifania (aparição), que produz possíveis existências do tempo e espaço. “Estou contigo mesmo”. A divinização, inerente à essência genesíaca, presentifica e produz subsídios transcendentais, como se vê no Livro de Jó: “E o SENHOR virou o cativeiro de Jó [...] acrescentou a Jó outro tanto em dobro a tudo quanto dantes possuía”.

Essa reviravolta engendra um discurso mítico do personagem bíblico (Jó), pois a condução do pensamento visualiza a identidade bíblica e a filosofia de vida. Olhar às passagens sagradas reflete as circunstâncias do sujeito empírico, que faz o uso da nostalgia, para definir decisões e traçar novos rumos identitários. Ao mesmo tempo, o recurso intertextual automatiza a consciência e a reflexão, haja vista a inspiração e a retomada de sociocomportamentos. Os episódios bíblicos trazem identidades altissonantes capazes de ressignificar a vida social dos sujeitos, em tempos pós-modernos. Murilo Mendes encerra o poema “Novíssimo Job” unificando as passagens terrenal e eternal: “Sou tua herança desde toda a eternidade”.

Imagem: Job e seus amigos (1869), de Ilya Yefimovich Repin

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.