Por que se amotinam as nações?

O título do papo de hoje é a parte “a” do verso primeiro do Salmo 2. Não entraremos em questões teológicas. Vamos nos ater apenas à questão mais literal e latente da pergunta. Em outras palavras, mais símplices, o salmista indaga: Por que existem guerras? Por que os povos se enfrentam, armados? Por que estas atrocidades que estão acontecendo, agora, não apenas na Ucrânia, mas também na Etiópia, em Mianmar, na Síria e em tantos outros lugares menos noticiados do planeta? Por que Estados (esta ficção infernal) se atacam e sangue, suor e lágrima são derramados em proporções diluvianas?

As guerras iniciam-se basicamente pelas mesmas questões que iniciam-se as brigas entre os indivíduos. Achamos uma barbaridade que milhões morram porquê a Nação “A” exige a devolução ou a cessão de um pedaço de terra pela Nação “B”. Mas, será que nunca ouvimos falar de vizinhos de quarteirão que se degladiaram até à morte por um pedaço de terreno não adequadamente dividido pelos engenheiros ou pedreiros, embora devidamente delimitado na escritura registrada em cartório? Achamos terrificante que exércitos inteiros marchem porquê o Presidente do País “C” ofendeu pessoalmente o Primeiro-Ministro do País “D”. Mas, será que nunca assistimos a famílias inteiras se enfrentando, feito Capuletos e Montecchios, porquê há três gerações atrás alguém insultou fulano ou beltrano durante um jogo de futebol ou briga de bar?

Todos os atritos que experimentamos pessoalmente são experimentados pelos grupos, pelos coletivos. Cada homem e mulher representam as pulsões e instintos primitivos de uma multidão -- seja ela uma torcida organizada depredando os quarteirões próximos ao estádio onde aconteceu a derrota do seu time; seja ela um partido político incendiando seus adeptos com proclamações e conclamações exaltadas contra outro grupo ideológico considerado rival; seja ela a turminha da pescaria se ressentindo, na base do facão e da ameaça, de outra turminha que tomou seu lugar cativo de pesca à beira do rio; seja ela, finalmente, um Estado convocando seus reservistas para fazer valer seus interesses à força de exército, marinha, aeronáutica, ogivas nucleares e muita retórica.

Quando você se perguntar porquê (ou pelo quê) Alexandre, César, Napoleão e Hitler brigaram. Quando você se perguntar porquê Dário III, Pompeu, Jorge III e Churchill brigaram. Quando você se perguntar porquê Putin e Zelensky brigam. Pergunte-se: Por que eu briguei? Por que eu brigo? Por que eu brigarei? Por que eu brigaria? Você perceberá que, no fundo, indivíduos e povos se machucam pelos mesmos motivos.

Por que se amotinam as nações? Pelos mesmos motivos que se amotinam os indivíduos. Todas as leis geopolíticas estão incrustadas no coração e na mente de cada homo sapiens. Por que morreram 85 milhões de pessoas na 2ª Guerra Mundial? Pelo mesmo motivo que Caim matou Abel.

Certo estava Karl Kraus: “A guerra, a princípio, é a esperança de que a gente vai se dar bem; em seguida, é a expectativa de que o outro vai se ferrar; depois, a satisfação de ver que o outro não se deu bem; e finalmente, a surpresa de ver que todo mundo se ferrou.”

Autor

Dayher Giménez
Advogado e Professor