Os Idos de Março e a dualidade na relação outonal
O mês de março recebe o nome em homenagem a Marte, deus romano e símbolo da guerra. Curiosamente, no antigo calendário romano, era o primeiro mês do ano e marcava o início da primavera, além de atividades bélicas do reinado. Março, também, consagrou a morte de Júlio César, quando os senadores o esfaquearam, no dia 15 de março de 44 (a.C.). Quem nunca ouviu a célebre frase: “Et tu, Brute?” (Até tu, Brutus?). O símbolo de março torna uma representação de nós, mesmos, enquanto descobridores das dualidades existentes no interior da alma humana. Na narrativa genesíaca, Adão e Eva caíram nas armadilhas de um réptil, contanto que conseguissem ter a ciência do bem e do mal. A partir daí, março torna-se tempo enigmático, que abre vestígios ao entendimento da vida.
Em 1957, Carlos Drummond de Andrade publica a crônica “Fala, amendoeira”, na qual o narrador, durante o equinócio de outono, dialoga com uma amendoeira, que diz: “– trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem [...] uma suspeita de inverno”. A árvore confessa que o sobejo estival recebe as vivências da juventude, bem como a beleza incandescente da melhor fase da vida. A antecipação primaveril estabelece o rito produtivo, que aguarda os frutos e põe em evidência a continuação da vida prazerosa. A descrição do inverno antecipa o sentido de tormento, porquanto esfriam as paixões e apresenta um comportamento inóspito. Nota-se que a amendoeira, implicitamente, passa pelo outono e carrega inúmeras personalidades, nos Idos de Março.
Quanto aos Idos de Março, a amendoeira atualiza ao narrador: “– Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza”. As dualidades (bem e mal, alegria e tristeza, etc) representam a alma humana, visto que sintetizam o crepúsculo das mudanças personalistas e concebem as identidades inesperadas, no curso da vida. Trata-se de momentos tão decisivos, que comportam a indecisão e marcam o clímax das narrativas feitas pelo acaso. Na sequência discursiva, a amendoeira ressalta: “– Simbolizo teu outono pessoal”. Essas impressões retratam as emoções ocultas nas atitudes, os sonhos não ditos nas concretudes, o ódio usurpando o amor etc. As renúncias, também, estão baseadas nas ações outonais, tendo em vista o fim dos ciclos, provocam a consciência humana e levam a compreender as interrogações.
As interrogações podem ser respondidas pela autodiluição do sujeito perspicaz, porquanto viver a vida funciona como efetividade empírica. Assim, a amendoeira realiza um neologismo essencial ao ser: “– Outoniza-se com dignidade”. O próprio verbo “outonizar”, no imperativo afirmativo apareceria “outonize-se” (você), para que “outoniza-te” (tu) esteja formal. Há a dualidade verbal, inerente ao outono dos sentidos, já que os usos descontextuais enaltecem o vaticínio e suas realizações. Percebe-se que a expressão famosa “Até tu, Brutus” ressoa como o outro lado do ser, na medida em que Júlio César se vê diante da aparição antagonista do amigo. Ficção e realidade conferem pano de fundo aos sujeitos históricos, pois fragilizam as aparências, que enganam as perspectivas do “outro” contemplador.
Outra evidência contemplativa abarca a exposição das relações anônimas, como a identidade de Diadorim, em “Grande Sertão” (1956), de Guimarães Rosa. A imagem andrógina do passado-presente assimila a dualidade visível na tessitura das memórias subjetivas. Os Idos de Março atuam como superestrutura cronotópica, pois aniquilam o pretérito e geram a atuação do presente, concomitantemente, além de canonizar atos transitórios. A canção “Certas coisas” (1983), de Lulu Santos e Nelson Motta, ilustra a relação canônica – “Somos feitos de silêncio e som”. A referência antitética possibilita a alternância da vocalidade e conscientiza o sujeito a falar em silêncio. Tom Jobim (1972) entoava: “São as águas de março fechando o verão, é a promessa de vida no teu coração”.
Imagem: La morte di Cesare (entre 1804 e 1805), de Vincenzo Camuccini
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