Obesidade é doença
Eu não começo uma conversa sobre obesidade falando de estética. Começo falando de saúde. Porque é disso que se trata.
A obesidade é uma doença crônica reconhecida por organismos internacionais e, no Brasil, os números mostram que estamos diante de um problema consistente, não de uma percepção exagerada.
Dados recentes do Ministério da Saúde indicam que a obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024. Não é um salto pequeno. É uma progressão contínua ao longo de quase duas décadas. Hoje, cerca de um quarto da população adulta brasileira vive com obesidade. Quando somamos excesso de peso e obesidade, ultrapassamos 60% dos adultos.
Isso significa que mais da metade do país carrega um fator de risco importante para doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, infarto, AVC e esteatose hepática. No consultório, esses números deixam de ser estatística e passam a ser exames alterados, pressão alta, glicemia descompensada, triglicérides elevados.
Se olharmos para o início dos anos 2000, a obesidade atingia algo em torno de 12% dos adultos. Em menos de vinte anos, esse percentual mais que dobrou. Não houve um evento isolado que explique isso. O que houve foi mudança no padrão alimentar, maior consumo de ultraprocessados, porções maiores, menos deslocamento ativo e mais tempo em frente a telas.
Também não podemos ignorar o impacto econômico. O tratamento de doenças associadas à obesidade gera custo elevado para o sistema público de saúde e para as famílias. Estamos falando de um problema que afeta produtividade, afastamentos do trabalho e qualidade de vida.
É comum reduzir o debate à ideia de que basta “ter disciplina”. Mas quem acompanha pacientes sabe que a realidade é mais complexa. Existe componente genético, hormonal, emocional e social. Existe também um ambiente que favorece escolhas rápidas e pouco nutritivas.
Isso não elimina a responsabilidade individual. Mas exige que a abordagem seja técnica, estruturada e contínua. Obesidade não se resolve com promessa de 30 dias. Não se trata com culpa.
Eu trabalho com risco metabólico. Com prevenção de doença. Com qualidade de vida ao longo do tempo. Quando o paciente entende que estamos falando de saúde e não de padrão estético, o processo fica mais racional.
Os dados são públicos, oficiais e consistentes. A obesidade avança no Brasil e no mundo. Ignorar isso não muda o cenário. O que muda é acompanhamento adequado, estratégia realista e decisão sustentada ao longo dos anos.
Ronan Nakau
Nutricionista
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