O tempo passa, o tempo voa

Encontrei recentemente amigos da minha adolescência. E na hora veio um turbilhão de lembranças do passado. Conversamos animadamente sobre as coisas daquele tempo e, inevitavelmente, também sobre aqueles que foram ícones do nosso tempo, para o bem e para o mal. Muitos já se foram e outros permanecem por aí, atravessando décadas como testemunhas vivas de uma ou mais gerações.

Para falar apenas dos que estão vivos, lembramo-nos de algumas personalidades nacionais: Fernanda Montenegro, 95 anos; Glória Menezes, 92 anos; Renato Aragão, 91 anos; Dedé Santana, 90 anos; Mauro Mendonça, 93 anos; Laura Cardoso, 96 anos; Lima Duarte, 95 anos; Stenio Garcia, 93 anos; Ary Fontoura, 93 anos; Nathalia Timberg, 96 anos; Boni, 90 anos; Tony Tornado, 95 anos; Paulo Salim Maluf, 95 anos; Luiza Erundina, 91 anos; Fernando Henrique Cardoso, 95 anos; José Sarney, 95 anos; Pedro Simon, 96 anos; Pepe (o canhão da Vila), 91 anos; Dino Sani, 93 anos e Zuenir Ventura, 94 anos. Das personalidades estrangeiras: Clint Eastwood, 95 anos; Morgan Freeman, 88 anos; Woody Allen, 90 anos; Jack Nicholson, 88 anos; Dustin Hoffman, 88 anos; Anthony Hopkins, 88 anos; Michael Caine, 93 anos; Willie Nelson, 92 anos; Imperador Akihito, 92 anos; Fairouz, 90 anos; Mel Brooks, 99 anos.

Deve estar faltando gente. Não faz mal. Os leitores hão de me relembrar de alguma falha imperdoável. Para não encompridar a conversa, nem entramos na turma dos 80 e pouco. Muito menos os 80 abaixo. A lista e a conversa ficaria bem mais longa. Pensando bem, cada um desses nomes era uma referência no nosso tempo. Estavam em todo lugar: na televisão, no rádio, nas páginas das revistas, nos jornais, no santinho, nos estádios de futebol. Nós assistimos, ouvimos, votamos, torcemos. Tudo por causa deles.

Talvez não tenhamos percebido, mas fomos envelhecendo junto com eles. As vozes continuam familiares, os rostos nem sempre nos parecem os mesmos, mas o calendário insiste em lembrar que já atravessamos muitas décadas. Talvez por isso a gente se alegra ao saber que tantos deles ainda estão por aí. Não é apenas admiração. É também uma forma de garantir que um pedaço da nossa própria história continua vivo. Quando um desses nomes desaparece, não é só uma celebridade que parte. Vai junto um fragmento da época em que éramos jovens e acreditávamos que o mundo cabia inteiro dentro de uma tarde.

Quanto aos amigos, finda a conversa, percebi que eles me fitavam em silêncio, como se estivessem procurando sinais do rapaz que eu fui há mais de 45 anos. Não é só perto da morte que passa um filme na nossa frente, o filme da nossa vida. É verdade que eu era magrinho e não tinha cabelos brancos. Olhei atentamente para eles também. O tempo passa para todo mundo!

Autor

Toufic Anbar Neto
Médico, cirurgião geral, diretor da Faceres. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura