O simbolismo do mar da vida
A visão marítima expõe uma das facetas do Absoluto, em termos de análise da natureza, que se manifesta de forma sublime. Experiências individuais e sociais revelam a relação do homem, ao questionar as circunstâncias corriqueiras. Vê-se que as emoções, sob via das inspirações, contornam histórias indizíveis, pois estão além das limitações narrativas. A memória singular marca a intencionalidade e explora reminiscências capazes de demarcar vicissitudes, na vida humana. A vulnerabilidade pessoal proporciona uma expansão de sensibilidade, visto que expõe a carência e a oportunidade de vislumbrar o futuro. Exponencialmente, o mar simboliza os pavimentos abertos à significação de realidade e ficção necessárias.
Roberto Carlos e Erasmo Carlos lançaram, em 1969, a canção “As Curvas das Estradas de Santos”, na qual as experiências individuais são demonstradas à luz do caminho tortuoso: “Vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim”. A viagem ao mar da vida passa pelos julgamentos alheios, que são interiorizados pelo eu lírico da canção. A intensidade emocional chega a confessar o etarismo: “E que, na minha idade, só a velocidade anda junto a mim”, como proposta de empirismo superior. De repente, a vulnerabilidade pessoal produz a própria queda – “Preciso de ajuda, por favor, me acuda. Eu vivo muito só”. A solidão íngreme funciona como antessala às águas oceânicas, porquanto a carência aperta e requer abertura ao horizonte.
Serpenteando, o eu referencial prossegue com o desabafo: “Eu prefiro as curvas da estrada de Santos, onde eu tento esquecer um amor que eu tive e vi, pelo espelho, na distância se perder”. O emaranhamento de circunstâncias amorosas não permitiu a fixidez das emoções coletivas, tendo em vista o tempero racional diluído nas curvas ficcionais de um relacionamento perdido. Memória e vertigem aparecem na viagem e tecem a desunião, cujo clímax estará na junção entre realidade e ficção. A ficção conjectura o quadro de restauração romântica, que, pelo platonismo, simula o reencontro corpóreo. “Mas se o amor, que eu perdi, eu novamente encontrar”. O caminho ao mar sentimental encerra-se, quando “as curvas se acabam” e o eu poético assevera: “na estrada de Santos, eu não vou mais passar”.
O escritor Eduardo Galeano, no ano 2000, publicou “O Livro dos Abraços”, em que a narrativa compartilha “a função da arte”: “Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar”. O cenário descrito guia a fragilidade do menino à procura da grandeza marítima, já que a imagem paterna refaz os percursos significativos. O menino e o pai “enfim alcançaram aquelas alturas de areia”, por uma viagem, que entrega o desejo de ver a existência. As areias retratam a inocência natural, bem como a ignorância diante das vivências ascendentes. É necessário enfrentar as tempestades de areia, para que veja o mar. Viagem e desafio coexistem, a fim de transmitir o sucesso esperado.
A perplexidade do menino Diego foi um divisor de águas. “E foi tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza”. A percepção, enquanto ponto ápice, celebra as narrativas emblemáticas e inclui perspectivas de modificação identitária. O Mito da Caverna (380 a.C.), de Platão, ressaltou a saída de um prisioneiro, que, ao ver a luz solar, sofreu com a visão ao mundo exterior. À semelhança do prisioneiro, o menino Diego permaneceu estupefato frente à grandeza marítima, porquanto a surpresa decifra as possibilidades de inspiração. O pretérito negligenciado abriu horizonte à aprendizagem futurística tão necessária ao sujeito exausto de falácias e vivências despretensiosas, oriundas da origem natural.
O movimento em direção ao mar da vida surge como evidência de que a existência humana é dinâmica em suas dimensões de tempo e espaço. O crescimento pessoal exige renúncias incontáveis, visto que há uma gama de identidades em funcionamento e propícia ao convívio social. Assim, as vulnerabilidades emocionais pressionam o sujeito a viver mundos (des)conhecidos, a ponto de transcender as peripécias do cotidiano. A busca constante pelo mar fundamenta as impressões deixadas pelos sujeitos da existência, porque as lembranças projetam as intencionalidades e dão inspirações. O símbolo marítimo tem por âncora a importância de olhar à realidade e à ficção, rumo aos destinos mais prazerosos. “E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, [ o menino Diego ] pediu ao pai: – Me ajuda a olhar [ o mar ] !”.
Imagem: As fases da vida (1835), de Caspar David Friedrich.
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