O próximo da fila

Na correria do meu intervalo de almoço, resolvi comprar carne aqui neste mercado perto de casa. Mesmo sabendo que poderia demorar, não havia mais como adiar o abastecimento do congelador.

Aqui estou. Falta apenas um número pra chegar na minha senha, mas há somente um açougueiro, então estou aguardando minha vez, com uma cestinha vermelha vazia em mãos, sem sofrer olhando para o relógio.

Inevitavelmente, nesse ambiente de espera de açougue presencia-se de tudo: conversas alegres, conversas tristes, relevantes ou irrelevantes.

Mas o que presenciei há um minuto parecia mais uma conspiração contra mim. As duas mulheres que conversavam, e reclamavam com o açougueiro pela demora, tinham exatamente a senha anterior e posterior à minha, 402 e 404, e pela forma como cochichavam e me olhavam pareciam tramar um plano.

Ao menos não foi nada grave, percebi que apenas combinaram de pegar ambos os pedidos na senha menor, que acabou de ser chamada, como se estivessem juntas, o que ainda assim me incomodou, porque não parece ter muito sentido.

Tirando a hipótese de uma urgência de família ou condição de saúde - que eu certamente compreenderia, como já fiz outras vezes - não vejo motivos pra esse ganho de dois ou três minutos em uma fila.

Pra mim acabou sendo mais um exemplo de como as pequenas desonestidades do dia a dia geram um reflexo tão grande na conduta da sociedade como um todo.

Estou um pouco triste por ter sido levemente passado pra trás, e segurando a impaciência do meu estômago esperando o almoço, já que os pedidos delas parecem intermináveis.

Porém, ao mesmo tempo fico grato por não ser eu a pessoa que tem essa moral, pois quem comete pequenas imoralidades está, em geral, apto a praticar grandes, às vezes só faltam ocasiões de se revelar plenamente.

Por fim, pude concluir apenas o que já sabia: que os desonestos também envelhecem e que a experiência não vem com o passar do tempo, mas sim na companhia de boas pessoas, leitura de bons livros e o exercício do altruísmo, que é o ato de se colocar no lugar do próximo.

Inclusive, acabaram de chamar o próximo, que, no caso, sou eu...

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, especialista em Direito e Processo do Trabalho pela EPD, mestrando em Direito e Gestão de Conflitos pela Uniara e coordenador da comissão de Direito do Trabalho da OAB de Catanduva, e articulista de O Regional