O Peso dos Mortos
A cinco dias da celebração dos mortos, um dia que lembramos de quem se foi à sangue vivo enquanto assistíamos a tragédia de duas favelas no Rio de Janeiro. Pobreza, miséria, vida dura e sem perspectivas. Qual é o Brasil que a cidade maravilhosa estampa com drones e fuzis quando enfileira seus mais de 100 mortos pelas ruas da periferia?
Medo, dor, pânico - o desespero tomou conta do endereço de um povo que sobrevive.
Trabalhadores foram embora para suas casas andando por horas, cenas que retratam uma dor coletiva sem restauração para entender os graves problemas que só aumentam diante do intraduzível, e dizem respeito aos nossos conterrâneos que vivem na tamanha falta de moralidade.
O desamparo sobrevive na retratação do nada e se sustenta no estado daquilo que se encontra abandonado, privado de ajuda material ou moral, sendo capaz de desfazer os laços da solidariedade entre os povos que ameaçam deixar atrás de si uma exasperação que impossibilita o reatamento de tais lembranças, ainda tão vivas dentro de cada um deles e de nós, enquanto assistimos o lugar que é cartão postal do Brasil ser despedaçado pela violência e suas mortes.
“Totem e Tabu” foi um importante texto escrito por Freud em 1913 onde ele dizia que o poder é conquistado e mantido com a violência, que inicialmente se restringe à força muscular, mas depois substituída pela capacidade intelectual de construir e ter mais destreza no manejo de novas armas. Deixar uma cidade sofrendo no morro é passar recibo de fracasso, que decapitados, suas mortes sangraram e foram sentidas por todos nós.
Freud explora a origem da cultura e da moralidade através de um mito sobre um grupo de filhos que matam e devoram seu pai, a figura de um líder tirânico que descreve a ambivalência dos sentimentos de grupo, que ao mesmo tempo odeiam e admiram o pai, e como essa dualidade é a origem dos tabus e das leis.
Para quem acredita e tem fé, Deus acima de tudo é o antídoto da certeza que ele sempre estará com os que sofrem, nos habitantes do morro, marginalizados e excluídos, nos que não tem o mínimo para sobreviver – é lá que ele se encontra. Enquanto os pobres estão sem moradia, comida e saneamento básico, sem condições de vida, os que tem tudo atestam o seu pior quando não podem sair de casa porque na rua tem um monte de gente gritando para ser ouvido - olhem para mim, me ajudem a sair da pobreza e a ter condições de vida.
Enriquecer em cima do massacre é o que temos visto, e além da morte morrida, outras mortes são vividas quando há falta de dignidade, de assistência, de condições mínimas de sobrevida, quando se está com fome e sem moradia, e também para quem está atrás da engrenagem, tão vítima quanto todos nós diante de um sistema que se encontra falido.
Se o dia 28 de outubro estiver nos livros de história de nossos descendentes, servirá para lembrar quando muitos fecharam os olhos para a dignidade dos cariocas e do Brasil enquanto país que tem mais sobreviventes que existentes.
Música “Anjos” (Pra quem tem Fé) – versão completa, de O Rappa.
Foto de acervo @zogheibclaudia
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