O perfume institucional da República
Os poderes podres sempre tiveram vocação para agir contra o povo. A novidade é vê-los agora atuando contra a própria Constituição — com naturalidade, silêncio e um constrangedor ar de normalidade. O problema é que, diante disso, não há a quem recorrer. O Senado, em especial, optou pelo mutismo absoluto: um silêncio tão denso que mais parece o velório de mandatos ainda em pleno exercício.
Na Praça dos Três Poderes, o cidadão comum começa a estranhar. Algo cheira mal — muito mal. Questiona-se o gramado, o adubo, o ambiente. Um especialista consulta outro, que se ajoelha, encosta o nariz na grama e sentencia: não foi o solo. O odor não vem da terra.
A investigação avança para dentro dos prédios públicos. Lá, a conclusão é inevitável: a podridão não é ambiental, é institucional. Está impregnada nos corredores, nos plenários e nas decisões travestidas de legalidade, embaladas por discursos técnicos e justificativas ocas.
Diante do incômodo, surge a solução oficial: culpar o povo. Afinal, nada mais conveniente do que condenar quem ousa apontar o cheiro — de preferência sem direito de defesa. Para surpresa geral, um popular grita contra a decisão absurda. Não para pedir favores ao tribunal, mas para lembrar que, quando a justiça se ausenta dos autos, ela reaparece nas ruas e nas praças. Se não há justiça para o povo, não pode haver paz nos poderes podres. A luta segue até que o mau cheiro vire adubo e os jardins do Brasil floresçam — não para esconder a sujeira, mas para anunciar, em alto e bom som: viva o verão das rosas.
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