'O importante é ser feliz'
À memória de Robson Batista Miranda
Manoel Carlos Gonçalves de Almeida foi um escritor, diretor e produtor brasileiro, que ganhou notoriedade pelas telenovelas da Rede Globo, a saber: “Baila Comigo” (1981), “Felicidade” (1991), “História de Amor” (1995), “Por Amor” (1997), “Laços de Família” (2000), “Mulheres Apaixonadas” (2003), “Páginas da Vida” (2006), “Viver a Vida” (2009) e “Em Família” (2014). Curiosamente, Manoel Carlos punha o nome de “Helena” em suas protagonistas, mensurando o arquétipo mitológico. Na mitologia grega, Helena significa “tocha / luz” e fragmenta identidade espartana (vivendo com Menelau) e troiana (estando com Páris), de sorte que a imagem feminina desencadeia conflitos e possíveis soluções. O sujeito feminil dá à luz felicidade complexa.
Em “A arte de reviver” (2006), Manoel Carlos justificou: “Vi no personagem mitológico a verdadeira encarnação do ser humano [...] miscelânia mitológica”. O método do frontão triangular, na arquitetura grega, simboliza a vida e suas nuances, visto que a felicidade reside nos “altos e baixos” do cotidiano ínfimo – no retilíneo temporal, há as curvas dos conflitos. As curvas da revelação causam choques prazerosos, nos encontros pequenos nascem grandes amores, o amor atinge o grau mais puro da injustiça, a renúncia abre novos relacionamentos, o pretérito reativa o futuro, o déficit regenera a vida, e a família incesta uma contracultura. A imagem de “Helena” ritualiza o homem.
Robson Batista Miranda, em 11 de março de 2025, ao se referir à imagem feminina: “Sexo frágil? Com certeza não, somos [...] dependentes de vc todos os dias, somos fortes mas jamais chegaremos a seus pés, a força que vc tem supera a nossa todos os dias...” Trata-se de uma tesselação geométrica, na qual a felicidade atinge seu ápice não na fixidez imagética, todavia nos diferentes prismas pelos quais a vida é capaz de tecer. As cariátides gregas tecem relações históricas, pois as fortalezas imprimem fragmentos memorialísticos, cuja felicidade está em recordar a gênese criativa. Compreender narrativas, a família, a sociedade etc é ver os pés de cariátides, porque deixam vestígios identitários de nós, mesmos, em atuação.
As Helenas das telenovelas de Manoel Carlos foram pujantes ao mundo masculino, ou seja, ressignificação às cariátides pós-modernas – mulheres heroínas, que não são um alicerce de virtudes nem proferem lição de moral no fim das histórias. A felicidade fundamenta-se no verbo “helenar”, um neologismo, no sentido de vivenciar múltiplas identidades e coexistir satisfação plena. Helenar-se é permitir que a existência faça o uso da aquarela da vida.
Vinicius de Moraes, em 1939, conjugou a essência do verbo helenar – “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. A felicidade orbita na efemeridade dos acontecimentos, porquanto torna-se eterno o que se acaba. A superação diante das perdas é, apenas, um pronome terreno, a fim de substituir a dimensão perene de toda a formação cronotópica. O importante é ser feliz, já que não há felicidade sem memória. Guimarães Rosa, no “Grande Sertão” (1956), destacou: “O que lembro, tenho”.
Imagem: Uma tesselação geométrica com profundidade 3D (2017), de Robson Batista Miranda.
Autor