O homem de confiança de Padre Albino

Não preciso nem falar o quanto Padre Albino era querido em nossa cidade e região, por consequência das suas obras e seu jeito de ajudar o próximo. Pessoas simples, altas autoridades, católicos ou não, admiravam suas atitudes e alguns, na medida do possível, auxiliavam o grande padre nas suas realizações em Catanduva.  

Dentre as pessoas que tiveram muita proximidade com Padre Albino, está a figura do Sacristão Alípio Augusto Alves, nascido em 1893, em Vinhares, Portugal, “o melhor auxiliar de Padre Albino”. 

De família simples, veio tentar a sorte no Brasil, aqui chegando em 1936, onde, quatro anos mais tarde, chegou à cidade de Catanduva, exercendo a função de sacristão da Igreja Matriz de São Domingos. 

À sua maneira, foi aprendendo o ofício e era um cumpridor fiel das ordens de Padre Albino. Era o guardião da sacristia, de toda a igreja e da Casa Paroquial. Guardava tão bem os objetos, que, às vezes, até se esquecia de onde estavam.  

Alípio era considerado um resmungão e parecia sempre estar com o semblante fechado, de pouco sorriso. Mas esse era seu temperamento, sempre obediente e não guardando rancor de ninguém. 

Além de suas muitas atividades religiosas nas missas, batizados e casamentos, ele era o responsável para bater o sino anunciando o horário das missas e também subia os muitos degraus para dar corda no relógio. Por vários anos, ia três vezes ao dia buscar as refeições em um hotel perto do Rio São Domingos, buscava e levava as correspondências e ainda cuidava das aves (galinhas e perus) que eram criadas nos fundos da Casa Paroquial, trazidas dos sítios pelo Padre Albino e que seriam futuras prendas das quermesses.  

Companhia  

Apesar de não ser de muitas leituras, Alípio era amigo de todos, principalmente dos integrantes das várias associações religiosas. Como aprendia muitos nomes de objetos só por escutá-los, acabava denominando-os como lhe parecia. Por exemplo, Vicentino era “stenino”; Nossa Senhora do Perpétuo Socorro era “Nossa Senhora dos Couros”; microfone passou a “mastrocone”; e o solidéu do Bispo, “capacete”. Foi um excelente sacristão, sem nunca se preocupar com recompensas. 

Porém, em 1969, Padre Albino deixou a Casa Paroquial e a Matriz e foi morar e celebrar na Capela do Hospital Padre Albino. 

No Livro do Tombo, Nº 02, frente da folha 17, existe a seguinte anotação feita pelo Vigário Padre Sylvio Fernando Ferreira: “O sacristão, Sr. Alípio Augusto Alves, que trabalha há 26 anos na Matriz continuará sua função, por sua livre e espontânea vontade. Foi homem de confiança de Monsenhor Albino e continuará sendo do vigário auxiliar”. 

Em 1973, Padre Albino sofreu uma queda no hospital, foi internado em estado grave e acabou falecendo em 19 de setembro. 

Com a saúde abalada já há algum tempo, em 20 de junho de 1973, o sacristão Alípio foi também internado no Hospital Padre Albino, com grave doença, à qual não resistiu, falecendo em 8 de outubro de 1973, com uma diferença de apenas 20 dias da morte de Padre Albino. 

A pedra do Alípio  

De acordo com o professor Sérgio Luiz de Paiva Bolinelli, em seu Boletim Só 10, Nº 60, de dezembro de 2010, ele relata que “(...) era comum, nos tempos do Padre Albino celebrando na Igreja, que muitos dos participantes, principalmente os Marianos, ao invés de se dirigirem aos bancos, preferiam participar quase junto ao altar e celebrante, entrando pela porta que da sacristia chega-se ao presbitério. Também era comum, por ocasião dos casamentos, que os padrinhos e madrinhas, antes da chegada dos noivos, reuniam-se na sacristia para assim que os noivos adentrassem à Igreja, eles entravam no presbitério e se colocavam do lado dos noivos que os convidaram, formando aquele semi-círculo”. 

Por esses e outros motivos, surgiu a Pedra do Alípio, que na verdade era um paralelepípedo que o sacristão conseguiu e levou para dentro da sacristia. Lá ele teria uma única finalidade, muito importante, segundo o sacristão: segurar a grande porta de entrada para onde se encontrava o altar. Isso porque, no dia a dia ele verificava que estando todas as portas abertas, vez ou outra se formava uma corrente de vento e aquela grande porta batia, fazendo um grande barulho. Ele já havia colocado pequenos calços, mas que não tinham resolvido o problema, até que chegou o paralelepípedo e deu conta do recado. 

O único problema acabou ficando com os frequentadores que passavam por aquela porta. Participantes das missas, padrinhos e madrinhas entravam despreocupados por aquela porta, e davam belos tropeções na dita cuja. Realmente, era uma pedra no sapato. 

 

Fontes de pesquisa: 

 

 - Boletim Só 10, Nº 60, de autoria do professor Sérgio Luiz de Paiva Bolinelli, de dezembro de 2010. 

 - Jornal O Regional, de 09 de outubro de 1973. 

 - Material pesquisado no acervo do Centro Cultural e Histórico Padre Albino.  

 

E:\Trabalho\O Regional\Matérias 2015\01 - Janeiro\04 - A Pedra do Alípio - 25-01-2015\20.JPG 

Essa casa, na esquina das ruas Brasil e Minas Gerais, era a Casa Paroquial onde morava o Padre Albino. No começo dos anos 40, essa casa foi vendida e no local foi construído o suntuoso prédio da Drogadada, onde hoje é o Torra-Torra. Foto tirada na década de 1940