O Fantasma: 90 anos de 'O Espírito-Que-Anda'

Antes do Superman, antes do Batman, muito antes do Homem-Aranha e dos X-Men, havia O Fantasma. Ele foi o primeiro a usar a proverbial “cueca sobre as calças”, que depois viraria quase um padrão nos super-heróis. Surgido nas páginas de jornal dos Estados Unidos em 17 de fevereiro de 1936, The Phanton foi criado pelo roteirista Lee Falk e o desenhista Ray Moore, logo se tornando um dos personagens mais longevos e influentes da cultura pop, ainda na ativa, embora um pouco esquecido pelas novas gerações, completando seu 90º aniversário.

Lee Falk (1911-1999), já conhecido por ter criado Mandrake, o Mágico, em 1934, o primeiro a ter “superpoderes”, foi convidado pela King Features Syndicate a desenvolver um novo personagem para as tiras de jornais, para rivalizar com Tarzan dos Macacos, cuja versão para quadrinhos em 1929 foi a primeira a utilizar um personagem não cômico. Ao lado do artista Ray Moore, ele apresentou ao público um combatente do crime mascarado, vestido de traje colante e inspirado na estética de heróis pulp e selvagens, (seu traje emulava os dos artistas circenses, assim como a do Mandrake a do mágico de teatro), mas com uma dimensão mítica própria.

O personagem, cuja identidade secreta é Kit Walker, vivia numa fictícia selva de Bengala: no começo, identificada como na Índia, mas depois da independência do país, sem maiores explicações virou uma região  africana. Chamado pelos nativos de “O Espírito-Que-Anda”, sua “imortalidade” vem justamente do fato de que o manto do Fantasma é passado de geração em geração desde 1536, quando um antepassado foi vítima de piratas. Isso criou sua lenda e mitologia, com tantos aliados (principalmente os temíveis pigmeus Bandar, quanto a Patrulha da Selva), quanto inimigos (piratas Singh). Os vilões são marcados com a “marca da caveira”, com um soco, além de contar com a parceria do garanhão Herói e do cão Capeto. Mora na Caverna da Caveira, onde possui um rico tesouro que usa para combater o crime e manter a Patrulha da Selva, que evoluiu de um sistema colonial para uma entidade ligada a um governo democrático africano. Casou em 1977 com a americana Diana Palmer, após décadas de namoro.

Desde sua estreia como tira diária em 1936 e como página dominical em cores em 1939, em milhares de jornais pelo mundo, O Fantasma tem sido publicado de forma praticamente contínua por mais de nove décadas. No Brasil, sua revista foi uma das mais longevas, publicada desde os anos 40 até o final do século XX pela RGE (Globo), com tanto sucesso, que até autores brasileiros foram convocados para criar mais aventuras do personagem.

Diversos artistas trabalharam no personagem ao longo dos anos, incluindo Wilson McCoy, Sy Barry, o brasileiro Walmir Amaral (na Editora Globo) e muitos outros. A narrativa foi mantida após a morte de Falk em 1999 por roteiristas como Tony DePaul e artistas contemporâneos, um testemunho da longevidade e do carinho reservado ao herói. Recentemente, suas histórias clássicas ganharam uma coleção de “omnibus”, calhamaços com todas as HQs lançados pela Mythos, Também uma série de eventos ao redor do mundo marcam os os 90 anos. revivendo o personagem.

Ao longo das décadas, O Fantasma saiu das páginas dos jornais para outras mídias várias vezes: Em 1943, foi lançado um seriado em 15 capítulos, estrelado por Tom Tyler como o Fantasma. Em 1996, comemorando seus 50 anos, o personagem chegou às grandes telas com O Fantasma, dirigido por Simon Wincer e estrelado por Billy Zane no papel de Kit Walker. Apesar de não ter feito grande sucesso comercial, tornou-se um filme cult entre os fãs.

Várias adaptações televisivas foram produzidas, incluindo a série animada Fantasma 2040 nos anos 1990, que levou o personagem a um contexto futurista e introduziu uma nova geração de fãs. O Fantasma também apareceu em produções como Defensores da Terra (1980s), ao lado de outros heróis clássicos da King Features, como Mandrake e Flash Gordon, e teve diversas versões em mídias secundárias ao longo do tempo.

Para marcar o 90º aniversário em 2026, a franquia tem ganhado novo impulso: A King Features lançou um webcomic moderno chamado Phantom 2040: A New Shadow, com história ambientada no ano 2040, adaptando o legado do personagem para um público atual por meio de episódios semanais em plataformas digitais. Novas séries de quadrinhos foram publicadas pela Mad Cave Studios, trazendo o Fantasma de volta às bancas com uma narrativa revista e atualizada. Lançamentos especiais, coletâneas, edições comemorativas e produtos licenciados foram preparados em torno da celebração dos 90 anos.

Ao completar 90 anos, O Fantasma não é apenas um personagem de quadrinhos: é uma parte viva da história dos heróis modernos. Sua influência sobre a estética, narrativa e mitologia dos vigilantes mascarados é inegável, e a celebração de 2026 reafirma seu lugar entre os pilares da cultura pop mundial.

Autor

Sid Castro
É escritor e colunista de O Regional.