O empenho que derrubou a soberba

No ano de 2015, quando eu nem havia completado 2 anos como advogado e 24 anos de idade, fui fazer uma audiência de conciliação em Ribeirão Preto. Era um caso complexo, de vínculo de emprego, horas extras e afins, então as provas tanto poderiam ser favoráveis, como contrárias, não tendo nada ganho ou perdido naquele momento.

Então começamos a audiência, já aguardando uma proposta de acordo da empresa, já com a proposta do cliente alinhada, tudo normal, como sempre fiz e ainda faço.

Eis que a advogada da empresa, no alto de sua experiência e renome, com um sorriso soberbo diz ao juiz, tentando ignorar minha presença: “É impossível fazer acordo nesse caso excelência!”.

Aquilo me desconcertou, pois me parecia possível sim. Claro, a empresa tinha todo o direito de não oferecer proposta de acordo, achar que era inviável, que tinha muita chance de ganhar o processo, mas jamais ter certeza.

Não demonstrei o desconforto, encerramos a audiência que era apenas de conciliação, e o retorno para Catanduva foi de muita reflexão, vontade de chegar logo e estudar ainda mais o caso.

Cheguei ao escritório, pontualmente, às 17h00, e o cansaço de um dia inteiro de trabalho era insignificante perto da curiosidade para reler novamente o meu processo, processos semelhantes, doutrina sobre o tema e jurisprudências de então.

Eu não estava de má-fé, sempre fui dedicado, detalhista, não havia como ter feito um pedido absurdo, inepto, totalmente inviável ou impossível, mas o respeito à experiência daquela advogada colocou minhas convicções em xeque.

Após umas três horas de pesquisa, reforcei o que eu já sabia: era sim possível a procedência daquela ação, se as provas fossem favoráveis (especialmente a prova oral, como testemunhas e as partes), e o juiz concordasse com a tese jurídica.

Havia inúmeros casos assim.

Na próxima audiência, quase um ano depois, cheguei já preparado para a soberba estratégica da advogada, que se repetiu nos mesmos termos “É impossível fazer acordo nesse caso excelência!”.

Agora preparado para a chacota, nem me importei, foquei no meu trabalho, nas perguntas para o representante da empresa, paras as testemunhas, e eis que a soberba começa a cair quando o próprio preposto da empresa começou a confessar alguns fatos, e as testemunhas confirmaram tudo o que meu cliente alegava.

Algumas semanas depois, o resultado daquela soberba, e do meu empenho: sentença favorável, mantida na segunda instância. Ganhamos uma excelente ação.

Enquanto meu cliente ficou feliz com o dinheiro recebido, eu só pensava em uma coisa: fui eu que ganhei a ação com meu trabalho, meu esforço e meus estudos, ou foi ela que perdeu com sua soberba e suas certezas?

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, especialista em Direito e Processo do Trabalho pela EPD, mestrando em Direito e Gestão de Conflitos pela Uniara e coordenador da comissão de Direito do Trabalho da OAB de Catanduva, e articulista de O Regional