O diabo na rua, no meio do redemoinho

A frase “o diabo na rua, no meio do redemoinho”, eternizada por João Guimarães Rosa em sua obra Grande Sertão: Veredas, carrega uma força simbólica que ultrapassa a literatura. Ela nos convida a olhar para dentro — especialmente para aqueles momentos em que a vida parece girar sem controle.

O redemoinho representa o estado de desorganização emocional. É quando pensamentos, sentimentos e lembranças se misturam, criando uma sensação de confusão, angústia e perda de direção. Quem já viveu uma crise emocional sabe: não é simples pensar com clareza quando tudo parece girar ao mesmo tempo.

É nesse cenário que o “diabo” surge — não como uma figura externa, mas como a expressão das nossas dores mais profundas. Ele aparece na impulsividade, nas palavras ditas sem filtro, nas atitudes que depois trazem arrependimento. Surge quando o sofrimento não encontra espaço de escuta e transborda de forma desorganizada.

Na prática psicológica, esse movimento é frequente. O sofrimento humano raramente chega de forma linear. Ele se apresenta em forma de redemoinho: confuso, intenso, por vezes contraditório. Pessoas em dor podem reagir com irritação, silêncio, afastamento ou até agressividade. Não porque desejam ferir, mas porque estão feridas.

Isso não significa justificar comportamentos inadequados, mas compreendê-los como parte de um processo que precisa ser cuidado. Sem compreensão, há julgamento. E o julgamento, muitas vezes, aprofunda ainda mais o sofrimento.

Vivemos em uma sociedade que cobra equilíbrio constante, como se fosse possível estar sempre bem. Mas a verdade é que todos nós, em algum momento, seremos atravessados por nossos próprios redemoinhos. A questão não é evitar completamente essas experiências — o que seria impossível —, mas aprender a reconhecê-las.

Reconhecer quando não estamos bem já é um passo importante. Buscar ajuda é um ato de coragem. Desenvolver recursos internos para não agir impulsivamente no auge da dor é um caminho de maturidade emocional.

Talvez o maior risco seja acreditar que o problema está sempre fora: no outro, nas circunstâncias, no mundo. Esse olhar nos impede de acessar nossas próprias fragilidades e de transformá-las.

O “diabo”, nesse sentido, não está apenas na rua. Ele se manifesta quando perdemos o centro — quando nos afastamos de nós mesmos.

E é justamente aí que entra o cuidado com a saúde mental.

Falar sobre emoções, buscar apoio psicológico e construir espaços de escuta são formas de atravessar o redemoinho sem se perder completamente nele. É possível, sim, reencontrar o eixo — mesmo depois de momentos intensos de desorganização.

A vida não nos poupa dos redemoinhos. Mas podemos aprender a não nos deixar definir por eles.

Autor

Ivete Marques de Oliveira
Psicóloga clínica, pós-graduada em Terapia Cognitivo Comportamental pela Famerp