O desafio

Ela entrou no grupo com muita convicção, acreditando que pelos próximos trinta dias o apoio coletivo lhe fará vencer um de seus maiores inimigos. O desafio era simples: trinta dias sem doces, com incentivo mútuo em um grupo virtual, mensagens motivacionais e até mesmo um sorteio ao final.

O grupo era formado majoritariamente por pessoas da cidade, o que fazia toda a diferença. Não se tratava apenas de resistir ao açúcar, mas de se sentir vigiada, ter cuidado com o carrinho de compras no supermercado, com o prato em alguma festa inevitável nesse período, ou em uma simples padaria.

E então, falando em padaria, no décimo primeiro dia do desafio ela se viu naquele balcão, outrora rotineiro, mas agora apenas para tomar um café, forte, sem açúcar, mas naturalmente autorizado. Encostou no balcão com a paz de quem estava vencendo, por mais um dia, a vontade de comer doce.

Enquanto aguardava o café, que sempre fora rápido, mas que desta vez parecia demorar uma eternidade, olhou para aquele balcão de vidro, cheio de bolos e doces odorizando o ambiente. Como a broa combinaria com esse café, pensou ela, e não resistiu, pois era apenas para acompanhar a bebida quente e amarga, sendo irrelevante perto de tantos dias cumprindo seu propósito.

De repente, olha do outro lado do balcão, uma segunda pessoa, lembrou que a conhecia, não sabia de onde, ah, em seguida teve certeza, era do grupo.

Na mão da outra, um pão de queijo transbordando chocolate, que não podia mais ser escondido e, por isso, a outra fingiu não se importar.

As duas se reconheceram imediatamente, o silêncio que se seguiu não foi constrangedor, foi até estratégico. Trocaram um cumprimento breve, com um olhar, um sorriso cúmplice, sem acusações, apenas um acordo tácito: ninguém viu nada.

No fim das contas, o desafio coletivo funcionou até o momento em que se deparou com a vida real, especialmente quando a vida real vem acompanhada de café, broa de fubá e pão de queijo recheado, que nos trazem conforto, afeto e uns quilinhos a mais para quem não fizer desafios de 30 dias sem doce.

Mais tarde, no grupo, alguém escreveu: “Bom dia amores. Seguimos fortes.”

E todas curtiram, inclusive elas.

Autor

Evandro Oliveira Tinti
Advogado, mestre em Direito e professor de Direito do Trabalho