O custo da desonestidade
As recentes auditorias da Controladoria-Geral do Estado de São Paulo (CGE-SP) sobre o programa "Melhor Caminho", revelando o pagamento por obras fantasmas e preços superfaturados durante a gestão de João Doria e Rodrigo Garcia, são apenas mais um capítulo na crônica da corrupção que parece intrinsecamente ligada ao sistema político brasileiro. Infelizmente, o que se vê replicado no âmbito estadual – como no caso das estradas no interior – tem raízes profundas que se estendem ao nível federal e se infiltram nas administrações municipais. A corrupção no Brasil não é um fenômeno isolado; é um padrão sistêmico, uma cultura que se perpetua pela falta de fiscalização eficaz e pela conivência ou cumplicidade em diversas esferas de poder. O desvio de verbas destinadas a serviços essenciais, como a infraestrutura rodoviária, representa um roubo direto da qualidade de vida da população, que paga impostos para ter estradas seguras e recebe asfalto fantasma. Superar esse ciclo negativo exigiria uma abordagem implacável, que é até difícil dizer se o país estaria preparado para tanto. O primeiro pilar é a transparência radical. Os dados de contratos, licitações e medições de obras devem ser acessíveis em tempo real e em linguagem clara para o cidadão comum. O segundo pilar é o fortalecimento dos órgãos de controle. A atuação do Ministério Público, como visto nos 150 inquéritos abertos, é vital, mas esses órgãos precisam de autonomia e recursos para investigar a fundo, sem interferências políticas. Contudo, a mudança mais duradoura virá do engajamento cívico. A população precisa se manter vigilante e exigir prestação de contas de todos os seus representantes, independentemente de partido ou nível de governo. A indignação precisa ser canalizada para a cobrança contínua, transformando o descontentamento momentâneo em pressão política. Somente com a combinação de fiscalização robusta e cidadania ativa teremos alguma chance de desmantelar as estruturas que permitem que o dinheiro público seja desviado em obras que nunca saem do papel.
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