Não é só ‘fase’: pode ser TDAH ou TEA

Ao longo da minha atuação como psicólogo clínico e neuropsicólogo, percebo que ainda existe um receio muito grande em relação à palavra diagnóstico. Muitas famílias temem que investigar TDAH, TEA ou outro transtorno seja “rotular” uma criança ou um adolescente. Na prática clínica, acontece o contrário. Avaliar é organizar o caminho.

Quando falamos em transtornos do neurodesenvolvimento, estamos falando de condições que afetam atenção, comportamento, comunicação, aprendizagem e regulação emocional. O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e o Transtorno do Espectro Autista não surgem do nada na adolescência ou na vida adulta. Eles acompanham o desenvolvimento da pessoa e, quando não identificados, costumam gerar sofrimento acumulado.

Uma criança com TDAH não diagnosticado pode ser vista como desinteressada, preguiçosa ou indisciplinada. Um adolescente com TEA pode ser interpretado como “estranho”, antissocial ou resistente. O problema não é apenas o sintoma. É a leitura equivocada que o ambiente faz dele. Isso impacta autoestima, desempenho escolar, vínculos sociais e até escolhas profissionais futuras.

A avaliação neuropsicológica é um processo técnico e estruturado. Utilizamos entrevistas clínicas, testes padronizados e instrumentos científicos para investigar funções como memória, atenção, linguagem, raciocínio e funções executivas.

Quando o diagnóstico é feito de forma responsável, ele não limita. Ele orienta intervenções, adaptações pedagógicas, estratégias familiares e, quando necessário, acompanhamento multiprofissional. Ele também traz alívio. Muitos pacientes relatam que entender como seu cérebro funciona reduz a culpa e o sentimento de inadequação.

Outro ponto importante é que nem toda dificuldade significa transtorno. Por isso, a avaliação é fundamental. Ela diferencia atraso pontual, questões emocionais, dificuldades pedagógicas e quadros clínicos estruturados.

Na vida adulta, o impacto também é significativo. Muitos adultos chegam ao consultório após anos de frustração profissional ou acadêmica e descobrem que sempre conviveram com TDAH ou outro transtorno não identificado. O diagnóstico tardio não muda o passado, mas reorganiza o futuro.

Defendo que buscar avaliação não é procurar um problema. É buscar clareza. Quanto mais cedo entendemos o funcionamento cognitivo e emocional de uma pessoa, maiores são as chances de intervenção eficaz, autonomia e qualidade de vida.

Diagnosticar não é rotular. É oferecer ferramentas. E, em saúde mental, informação de qualidade é uma forma concreta de cuidado.

Bruno Garibaldi

Psicólogo

Autor

Colaboradores
Artigos de colaboradores e leitores de O Regional.