Mulher e a essência da criação

A pluralidade da manifestação da vida projeta tempo e espaço, cuja força motriz guia à perfeição. Nos textos sagrados, a imagem feminina molda a primeira profecia – “esta [mulher] te ferirá a cabeça, e tu [serpente] lhe ferirás o calcanhar”. A partir do simbolismo profético, o tributo à Eva entrega o fluxo epifânico: a fábula, que desencadeou o engano original, e a promessa do nascimento messiânico. Trata-se de arquétipos feminis na ideia de posteridade, como se a caixa de Pandora fizesse vir à tona as concepções sincréticas e, sem seguida, os ideais sintéticos. O fazer contínuo vai além do imaginário, porquanto circunscreve a sensibilidade feminina de deixar vestígios da criação, na qual mistério e revelação se irmanam na plenitude.

No ano de 1978, Milton Nascimento e Fernando Brant escrevem a canção “Maria, Maria”, na qual o ponto ápice é a conjugação do verbo “ser” – “é um dom, uma certa magia”. A demarcação da essência feminina é carregada pela indefinição dos artigos empregados, visto que a historicidade é ínfima diante da fragmentação identitária do “eu”. Já a letra da música “Mulher” (1940), de Custódio Mesquita e Sady Cabral, confina a magia ao insaciável – “Não sei que intensa magia, teu corpo irradia, que me deixa louco assim, mulher”. O corpo estonteante vislumbra o universo inescrutável, à medida que o objetivo é entender a magia feminina. A magia compõe o vórtice da criação, por meio da invocação ao corpo – “Mulher, só sei que sem alma”. Os corpos em cena reduzem os atos racionais, em processo criativo.

O processo criativo desenrola questionamentos persistentes, em razão de serem justificativas, no âmbito da indagação. Machado de Assis, ao lançar “Dom Casmurro” (1899), provou que autoquestionamento é a arte expositiva à perfeição. Capitu estreia transcendente, tendo em vista o arquétipo de indefinível, sendo uma figura intuída. No velório de Escobar, “Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa”, configurando a objetividade da história, além de não deixar confirmado o adultério. Nesse sentido, o velório torna-se emblemático, já que conota o irrepresentável, quando Capitu medita a perda de Escobar, a eclosão do mistério e a importância de plasmar o duplo sentido do relacionamento humano.

O relacionamento humano está atrelado à figura feminina, que enfeixa, também, os escritos bíblicos. Em Apocalipse, a passagem “A mulher e o dragão” é repleta de arquétipos da história, porque enfatiza as noções de revitalização do tempo e espaço, bem como um redirecionamento dos incidentes culturais. “E estava grávida e com dores de parto e gritava com ânsias de dar à luz”. A dicção espiritualiza a identidade feminina, sendo permeável a surpresas elencadas entre passado e futuro. Em via contrastante, o sentido apocalíptico encaminha à ideia de fim de todas as coisas, porém adota a gravidez enquanto norte eficiente da feminilidade concreta. As dores profundas (não visíveis), paralelas ao grito crucial, herdam a luz suprema, pois idealizam a representatividade do ser pueril, que está na gestação do mistério.

A gestação simbólica qualifica a eternização do ser feminino, uma vez que as personalidades femininas desvendam a história humana e proliferam o progresso das identidades. Os transbordamentos da essência multiplicam aparências, cujos conflitos são a base de um futuro eficaz e legitimam, mediante a criação do pretérito interminável. A enunciação é símbolo do gerativismo, à medida que o falante seleciona as palavras e produz frases – eis a atividade feminina comum a todos os sujeitos, por intermédio do ato de produzir. Noam Chomsky (1950) dizia que o uso infinito (gestação) ocorre em meios finitos (partos) e essa concepção mostra a associação da imagem à essência da criação. “Toda mulher carrega a coragem para (trans)formar o mundo” encantado pelas colheitas memorialísticas.

Imagem: Margherite (2022), de Erico Santos

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.