Lírios do Campo

Existem muitos filmes e séries que falam das relações entre casais, sobre maternidade, vida em família, casamento, cuidados, culpa, acusações, amor materno, patrimônio, dor, luto, reparação, etc.

Eles favorecem o diálogo e, sobretudo, quando é possível enxergar além do perímetro individual e das idealizações o sofrimento humano, nos ensinam a exercitar o pensamento crítico para além do que escutamos da vida do outro, enxergando o sofrimento que precisa ser a dor de todos.

Os filmes e séries - All Her Fault, A vida mentirosa dos adultos, O testamento de Ann Lee, A amiga genial, A filha perdida, O bebê da mãe, Morra Amor, Jovens mães, Me ame com ternura, Se eu tivesse pernas eu te chutaria, Mãe fora da caixa, Valor sentimental, Hamnet, e outros não citados aqui, mostram de diferentes modos realidades duras, e precisam ser vistos como um lampejo na vida pessoal de seus protagonistas e como realidade da vida de muitos.

O que temos visto é uma desigualdade na vida cotidiana do que a pouco tempo era visto como um acordo entre casais, e funcionava à medida que elas aceitavam passivamente o que lhes era “sugerido” para a paz reinar no lar.

Divisão de tarefas, quem paga o que e quanto, quem trabalha fora e dentro de casa, vida profissional e carreira, o quanto os acordos iniciais de bens são mantidos, quem continua presente até o fim fazendo a família funcionar no mínimo possível de dignidade, depois que eles vão embora e não se responsabilizam pelas despesas e moradia. Estas são situações reais que vemos todos os dias e refletem faltas, vez por outra atropelados por familiares que estrangulam a relação opinando onde não deveriam opinar.

São muitas as camadas que distinguem a discussão de como as pessoas, sobretudo as mulheres, estão se reinventando à medida que trabalham o dobro, estão cansadas, saturadas, sem saber como devem se comunicar para serem entendidas por seus companheiros diante de um mundo que pede pressa, eficiência, correria, validação, quase o tempo todo.

Para Winnicott, ser uma mãe suficientemente boa é ser capaz de falhar, ser sensível e presente, além de prover as necessidades do bebê para que este se constitua como sujeito, continuamente aprendendo a partir da relação que estabelece com seu filho, e na somatória de falhas e acertos que acabam constituindo a “comunicação do amor” que é potencializada pelo fato de ali haver alguém que se preocupa e que não abandona. 

Os pais suficientes bons surgem da integração de todas as forças e dinâmica que sustentam os combinados, sejam eles quais forem, e precisam ser cumpridos pelo bem estar da família que um dia decidiram construir.

Não são somente as mães que cuidam, são os pais, não são os pais que sustentam, são os dois, e à medida que vão se atualizando os modelos da sociedade de hoje, a conversa precisa ser vista a partir das necessidades de ambos, pois, do contrário, as mulheres continuam a ser penalizadas por uma sociedade que não proporciona espaço de igualdade para elas.

Ao tentar responder à devastação materna com desmandas de um superego que cobra o tempo todo, muitas relatam uma profunda sensação de impotência e indignação, sentindo-se incapazes de estarem à altura das múltiplas tarefas cotidianas que se traduzem em exaustão e fracasso, que se potencializam quando há ausência de seus pares.

A superproteção e a perfeição são prejudiciais assim como o abandono que negligenciam cuidados, e seriam arriscados à segurança psíquica e física dos filhos. No entanto, para a manutenção de uma vida familiar e educação justa, ambos necessitam cumprir seus papéis onde o equilíbrio acontece quando a dupla cumpre o que escolheram quando decidiram viver juntos e ter filhos.

Casamento pode não ser para sempre, mas filhos sempre serão, mesmo quando alguns pais abandonam seus filhos e os combinados com as mães de seus filhos.

Música “I Could Be A Florist” com Olivia Dean.

Autor

Claudia Zogheib
Psicóloga clínica, psicanalista, especialista pela USP, atende presencialmente e online. Redes sociais e sites: @zogheibclaudia, @augurihumanamente, @cinemaeartenodivã, @livros.no.diva, www.claudiazogheib.com.br e www.augurihumanamente.com.br