Legado inerte da pandemia
O arquivamento da representação sobre a usina de oxigênio da UPA de Catanduva pelo Ministério Público Federal encerra um ciclo de questionamentos, mas deixa um sabor amargo de ineficiência pública. Um investimento de R$ 1 milhão, doado pela Petrobrás em 2021, destinado a garantir a autonomia vital no fornecimento de oxigênio durante a crise da Covid-19, jaz agora inoperante devido a um fator previsível: o alto custo operacional da energia elétrica. A justificativa apresentada pelo município ao MPF – de que o gasto com eletricidade supera o custo da aquisição direta do insumo – expõe uma falha crítica no planejamento que antecedeu a instalação do equipamento. A urgência da pandemia, que naturalmente força decisões rápidas, não pode ser um salvo-conduto para negligenciar estudos de viabilidade técnica e econômica básicos. A pergunta central que ressoa é: será que não era possível antever essa inviabilidade antes da cessão e da instalação? É inegável que o cenário de emergência impôs um ritmo frenético. No entanto, em qualquer esfera do governo – federal, estadual ou municipal – existem técnicos cuja função é justamente avaliar a sustentabilidade logística de grandes equipamentos. A instalação de uma usina de oxigênio, mesmo em meio ao caos, exige análise fria sobre consumo, manutenção e custo-benefício a longo prazo. O resultado prático dessa falta de antevisão é o desperdício de um recurso valioso que corre risco de deterioração, além da perda de uma oportunidade de reforçar a infraestrutura de saúde da cidade. Se a usina não era viável para a UPA, por que não foi direcionada, desde o início, para um local onde a necessidade fosse mais crônica e menos dependente de um pico pandêmico? A lição que fica é que, mesmo nos momentos mais sombrios, não é possível abrir mão da responsabilidade. A pressa em "resolver" o problema imediato não deve cegar os gestores para a realidade futura. O que se instala hoje deve ter um plano claro de sustentabilidade amanhã, para que os investimentos feitos em nome da emergência não se tornem apenas monumentos caros ao planejamento falho.
Autor