Lápis cor de pele

Estar em sala de aula, em especial na educação infantil, pode gerar momentos incríveis de ensino-aprendizagem, pois é nessa troca tão freiriana que podemos, enquanto docentes, aprender um pouco mais acerca do mundo da criança e ensinar novas perspectivas.

Pois bem, estava eu em minha sala, quando apresentei uma atividade em que deveria pintar um Coelhinho da Páscoa, atividade conjunta entre Professor Recreacionista (eu) e a Professora I da sala e estávamos lá, cada qual com seu desenho, pintando, eis que um aluno me chama e indaga: “Tio, posso pintar com esse lápis cor de pele?”, talvez alguns colegas não dariam importância para tal fala, outros sequer se disporiam a pensar a respeito, afinal, estamos tratando de crianças, não é?

Ainda não entendem o que tange o racismo estrutural e como isso afeta milhões de pessoas diariamente, mas bem, vejam agora do lado pedagógico, eu enquanto professor, tinha em minhas mãos a oportunidade de esclarecer a essa criança um fato que ela já tem formado em sua mente, uma criança de 5 anos com a concepção de que há lápis cor de pele (rosa no caso), não poderia me abster de fazer aquilo que minha função compete, que é mediar situações para o avanço do conhecimento, além de favorecer o rompimento com as mais diversas formas de preconceito existentes dentro e fora do contexto educacional e social. 

Gostaria de ressaltar aqui que a criança é negra e para que ela tenha construído a ideia de que a cor rosa é a cor da pele, mesmo sendo diferente da dela, é de fato uma construção social frágil e que deve ser repensada para todo um contexto social, não só na escola. Mas continuemos.

Convidei o aluno para me mostrar quais seriam as semelhanças entre a pele dele e o lápis, nesse momento, percebi que houve um momento que, ao refletir, percebeu que não é a mesma cor da pele dele. Convidei os demais a refletirem, uma vez que há diversas peles, habitadas por diversos humanos que são diferentes em si e não podem ser classificados por uma cor, a cor do branqueamento da pele negra. Claro que aqui estou formalizando a forma de falar, mas em sala utilizamos formas mais lúdicas, brincadeiras e reflexões a partir da perspectiva do aluno.  

O mais importante a se falar é até onde ainda necessitaremos ir para romper com essa estigmatização da pele negra? A educação deve manter os olhos muito bem abertos para que possa intervir da melhor forma, ressignificando o sentido da etnia na escola e na sociedade, em especial aos negros, que cotidianamente sofrem com o preconceito estrutural.

Mas antes que possam falar sobre militância, estamos falando aqui sobre dignidade, respeito, vidas e, para além disso, estamos falando de algo legal, ou seja, o tema deve ser vivo, abordado de forma multidisciplinar, transversalizado. Digo mais, trabalhado de forma intersetorial, conectando toda uma gama de pessoas para tentar romper com isso. 

Mas essa proposta não deve ser apenas pauta da escola, deve ser de toda a sociedade, de todo ser humano, de todo aquele que tem o sangue vermelho correndo em suas veias, que tem o sistema ósseo igual a todos, a estrutura muscular igual a de todos, que só tem a diferença, a pele que o reveste, porém, não o faz mais ou menos humano.

E compreender toda essa nuance possibilitará com que a humanidade vivencie a era da fraternidade humana, utópico não? Mas precisamos galgar passos firmes e conquistar mais e mais corações que dividam os mesmos sentimentos que os nossos para alcançar tal objetivo, caso contrário, ainda vivenciaremos muitas histórias como “o lápis cor de pele”. 

 

Eduardo Benetti 

Professor Recreacionista em Catanduva-SP.

Autor

Eduardo Benetti
Professor Recreacionista em Catanduva-SP.