Imagens de prisão: o método catártico entre estereotipia e empiria
A circunstância prisional, em diversos contextos, põe em xeque o método catártico, além de elucidar o ato reavaliativo das condutas humanas diante das peripécias contundentes. Com efeito, a representatividade de um prisioneiro movimenta a vida não realizada sob a penalidade imputada, apesar de o encarcerado conviver com os condenados. Trata-se de imagens flexíveis, que oferecem identidades além do sistema penitenciário, porquanto unem estereotipia (falta de clareza) e empiria (experiências), por parte de quem assiste aos atos penais. Grosso modo, prisão e liberdade parecem confessar mais a personalidade do mundo coletivo do que o do individual, já que o método cartático produz vestígios simbólicos. Lei e realidade passam pelo crivo pessoal, para instaurar o figurativo.
Em 1953, Graciliano Ramos entrega um relato autobiográfico, intitulado “Memórias do Cárcere”, no qual a prisão entrega as injustiças: “Preferível o cativeiro manifesto ao outro, simulado, que nos ofereciam lá fora”. A predominância do ato avaliativo abrange a crise existencialista e insinua a discussão das causas de prisão. Convém ressaltar que Graciliano Ramos expôs a própria prisão, durante a Era Vargas (1936-1937), e destacou a desumanização – “e, antes de começar, digo os motivos porque silenciei”. Nota-se que, ao redigir “porque”, houve inadequação ortográfica, ou seja, a imagem da errância diante da língua – padrão escrito. O desvio à norma culta simboliza o desajuste aos padrões getulistas da época.
Alexandre Dumas, em colaboração com Auguste Maquet, publicou o romance “O Conde de Monte Cristo” (1844), cujo protagonista, Edmond Dantès, foi preso, injustamente, no dia de seu noivado. A narrativa relega a segundo plano a proposta de felicidade, visto que a prisão prepara um tesouro incomparável. Depois de 14 anos, Edmond deixa o cárcere e pretende vingar-se dos algozes, quando a reconfiguração identitária (de preso a rico) transfere o teor prisional aos novos tempo e espaço. A referência ao Monte Cristo insere o símbolo do “Gólgota”, em que a caveira sintetiza morte deplorável e ressurreição gloriosa. Inspirado no romance de Dumas, Walcyr Carrasco escreveu a Novela “O outro lado do paraíso” (2018), na qual a personagem Clara Tavares é internada em um hospício e, saindo deste, fica milionária, com um plano de vingança contra os adversários.
Três Graças (2025), novela de Aguinaldo Silva, volta os olhos à protagonista Gerluce, que surgiu pela ressignificação do plano de Robin Hood – “roubar dos ricos, para dar aos pobres”. Fato intrigante o incidente de Gerluce descobrir que o empresário Santiago Ferette falsifica remédios, a ponto de este ficar rico à custa de circunstâncias enfermiças de cidadãos de bem. A protagonista resolve apropriar-se de uma estátua, denominada “Três Graças”, e distribuir o dinheiro, retido a essa escultura, às pessoas doentes. O ápice da novela foi o capítulo 134, quando Gerluce foi presa pelas mãos do próprio namorado, Paulinho, na junção operacional de justiça e paixão. No âmbito sentimental, o policial tornou-se mais prisioneiro do que a namorada, e o público ficou dividido entre estereotipia e empiria.
Os estados de prisão colocam em discussão estereotipia e empiria, tendo em vista o redirecionamento da imagem, que o prisioneiro proporciona ao povo. Os estereótipos ficam acoplados ao senso jurídico, porque ocorrem sem clareza, ou propósito, e conferem isonomia, no ato de restringir a eficácia aos padrões sociais. A sedição do público prova que a empiria eficiente desautomatiza a rigidez legislacional, porque os sentimentos de quem assiste à prisão subvertem a consagração do instante. A êxtase, presente no método catártico, move a conduta humana, pela rediscussão do papel individual frente ao entendimento de mundo. Há quem diga que o amor não segue os conceitos de justiça. Mahatma Gandhi dizia que “a prisão não são grades, e a liberdade não é rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência”.
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