Identidade materna na arte nascitura

A identidade materna veicula os sentidos, por meio do jogo representativo, porquanto as passagens empíricas são portadoras da junção origem – sequência. Além disso, a idealização cria uma paisagem edificante, na qual o amor expurga a forma maligna. De posse da memória, o sujeito filial emerge das imagens, enaltecendo a arte da vida, pela qual as circunstâncias hodiernas são insuficientes para exprimir identidades louváveis à figura materna. O tributo à rainha familiar utiliza o belo afetuoso, com vistas a reforçar e a ampliar a essência da criação. A afiguração redefine não só a consagração da origem, mas também a performance do sujeito criativo. Criador/criatura trocam de papéis e dão valor à arte nascitura. 

Em 1978, o cantor Roberto Carlos lançou “Lady Laura”, em homenagem à mãe, a Sra. Laura Moreira Braga. A referida canção arrebata o eu lírico à infância, guardada a sete chaves. “Tenho, às vezes, vontade de ser, novamente, um menino”. A fonte artística não reduz a imagem do ser adulto, todavia funde a identidade pueril. A perspectiva adultocêntrica expressa ser menino, diante da maturidade operante. “E, na hora do meu desespero, gritar por você [...]. Que me conte uma história bonita e me faça dormir”. Os substantivos abstratos “desespero” e “história” retratam o binômio “necessidade-possibilidade” – a vida insignificante, sem o colo materno, não oferece garantia de um mundo melhor. Voltar à figura materna é (re)nascer.

Ao abordar palavras abstratas, o eu poético reconhece a diferença entre tempo infantil e adulto. “Apesar da distância e do tempo, eu não posso esconder. Tudo isso eu, às vezes, preciso escutar de você”. A locução adverbial de tempo (às vezes) aparece reiterada, pois sinaliza a figura da mãe conciliando retorno (atual) e começo (futuro). Se a criação fora solidificada por emissão sonora, eis a necessidade de ouvir a voz materna.  “Lady Laura: me leve pra casa, me abrace forte, me beije outra vez”. Essas ações tridimensionais “leve, abrace e beije” compõem a base criativa, porque o lar caracteriza a formação do ser (fase infantil, adolescente e adulta). Em seguida, os abraços, seguidos de beijos, transformam dois corpos em um, de sorte que a autenticidade é concentrada pelo exercício amoroso.

Diante da grandeza adversa, o eu lírico evoca a presença materna. “Quantas vezes me sinto perdido no meio da noite, com problemas e angústias que só gente grande é que tem”. Aos poucos, a canção exprime a presença do bebê, no útero da mãe: a obscuridade só se desfaz, por meio de gracejos; as angústias acabarão, quando a criança vir a imagem materna. “Me afagando os cabelos você certamente diria: amanhã, de manhã, você vai se sair muito bem”. Atesta-se que a presença da consoante /M/ é, frequentemente, utilizada, tendo em vista a imagem das pernas femininas abertas, configurando o momento do parto; além de a concavidade, em formato V, sintetizar o útero. Assim, a proficiência parturiente tipifica as “manhãs” (ou manhas), enquanto necessidade de acolhimento e/ou superestimulação. 

A segunda parte da canção envolve o nascimento (criação). “Quando eu era criança, podia chorar nos seus braços”. Novamente, as concavidades /o/ e /u/ figuram o seio feminino, em providência eficaz, já que o choro expande a sequência da vida. “E nas horas difíceis podia apertar sua mão”. O início da adolescência está inferido na sabedoria materna – “Conselho de mãe não se engana”. As mãos da mãe ampliam a visão crítica, que afeta a produtividade do filho, em todas as áreas da vida. “Tenho, às vezes, vontade de ser, novamente, um menino. Muito embora você sempre ache que eu, ainda, sou”. A assonância da vogal /e/ utiliza o corpo do bebê, em posição cefálica, uma vez que prepara o sujeito para o mundo exterior.

O mundo exterior caracteriza o mundo interior, já que os sujeitos criadores produzem naturezas. Jesus, prestes a transformar água em vinho, disse à Maria: “MULHER, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. Apesar de a Bíblia nunca apresentar Jesus chamando Maria de “mãe”, verifica-se que o Criador está diante da criatura. Na crucificação, Jesus disse: “MULHER, eis aí o teu filho”. A troca de papéis “Criador/criatura” elucida a arte nascitura, ou seja, a figura materna, na velhice, retomando os comportamentos infantis. A canção Lady Laura trouxe o adulto-menino e, depois, menino-adulto. Da mãe ao menino e do menino à mãe, “eis-nos de volta à planta pelo fruto” (FONTELA, 2006).

Imagem: Maternidade (1905), de Pablo Picasso

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.