Ícaro entre o sonho e a hybris

O nome Ícaro (Ikaros) tem profundidade intrigante, pois significa “seguidor” ou “aquele que segue”. A desestimulação pelo convívio labiríntico mostra que a arte e a realidade podem não ser concomitantes e estreitar a vida natural, tanto no que concerne aos desejos como aos exageros necessários à satisfação do ser atuante. O ato de suprir a carência intensifica os interesses e estes podem cair em uma vontade não apaziguada. Os motivos humorísticos justificam inúmeros voos incipientes e notam o plano reacionário contra as ordens estabelecidas, que são nocivas ao prazer. As constatações mitológicas, a exemplo de Ícaro, personalizam o comportamento humano e como sonho e exagero demandam identidades necessárias à convivência social.

Em 1984, o cantor Byafra lançou a música “Sonho de Ícaro”, na qual relações de ascendência estimulam as de decadência, enquanto manifestação artística e realística. “Voar, voar” define a atividade onírica, na constituição de cronotopo (tempo e espaço), pois o lugar havia ficado inóspito e acentua a revolução locativa. A grandeza revolucionária, na canção, está na assertiva de “descer até o céu cair”, visto que a intensidade onírica ultrapassa o firmamento, rompendo-se as zonas limítrofes. Em virtude disso, as potencialidades humanas estão nos sentimentos mais algozes – “Do alto coração, mais alto coração”. Se a autodestruição materializa os dissabores, as criações anárquicas podem possuir caminhos altissonantes.

Quanto aos caminhos altissonantes, a resistência flerta os limites impostos. “Em que o sol derreta a cera até o fim”. A hybris (ou exagero) compromete o caráter do sujeito sonhador, pela exuberante passagem da espontaneidade à convicção. Sabe-se que vislumbrar a convicção nem sempre é estar livre da espontaneidade, porque a mediação emocional assegura qual personalidade adotar em determinados incidentes. Dante contemplou a Terra estando no Paraíso supremo, e Vasco da Gama foi surpreendido pela visão aos cosmos de mil esmaltes e outras imagens, que lhe revelaram a belíssima Tétis. Alguns personagens de narrativas mirabolantes foram considerados espontâneos no descobrimento, mas convictos pela verdade.

Daí o poder individual exercer a atração contemplativa, em sintonia com os modelos proporcionados pela sociedade. Ícaro recebe as asas de cera, e os sujeitos são recrutados nas identidades dos próprios tempos e espaços. A obra “O Ateneu” (1888), de Raul Pompéia, traz o pai de Sérgio afirmando o início de um voo: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”. O expediente estudantil traz o autorreconhecimento das fragilidades inferidas no simples ato de frequência escolar, porquanto faz a abertura em pleno labirinto das infantilidades. “Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança”. Ícaro infantil resolve sair das ilusões.

A crise provocada pelas ilusões abstrai identidades necessárias às funções sociais, pois são voos sensíveis e provam da realidade inexorável. As imagens disformes do sujeito, que voa e precede a queda, distanciam a concepção onírica, pelo fato de o exagero estar no ápice, enquanto intensidade subjetiva. A efetivação do voo insinua o contato com um abismo traumático, intuídos na versão contrastante do ser terrenal (belo) e sideral (sublime). Na verdade, o eu icaroano busca transpor as implicações, vivenciando pretérito e presente, concomitantemente, tendo em vista a morte como forma de superação. Já diziam os Paralamas do Sucesso (1991), “o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu”.

Imagem: A morte de Ícaro (1857), de Alexandre Cabanel

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.