Fundadores de Catanduva

Estamos no domingo que antecede o dia que comemoramos a instalação do município de Catanduva, ocorrido em 14 de abril de 1918. Neste ano, nosso município completa 108 anos.

Por esse motivo, nas próximas matérias retratarei alguns temas ligados aos primórdios de nosso querido povoado, que com o passar dos tempos foi se transformando na querida Cidade Feitiço que temos atualmente.

Um tema interessante e que já abordei em épocas passadas é sobre a fundação da cidade de Catanduva, fato que ainda causa muitas curiosidades e dúvidas em grande parte da população.

Muitos alunos meus, ainda mais quando estamos próximos da data, me questionam sobre quem de fato teria sido o fundador da cidade de Catanduva, buscando, de fato, uma resposta única, uma figura importante para o surgimento de nosso pequeno Cerradinho.

Antes de discutir sobre a questão da fundação da cidade, convém fazer algumas considerações sobre dois pontos essenciais que envolvem esse assunto: as fontes históricas e a questão da “verdade” na História.

Material

Um dos elementos mais importantes para o trabalho do historiador são as fontes históricas que ele manuseia para poder tentar investigar sobre o passado. Podemos definir fontes históricas, de maneira resumida, como qualquer material ou objeto que nos possa trazer informações sobre o passado.

Até o final do século XIX, uma das principais correntes historiográficas defendia que apenas os documentos oficiais poderiam ser considerados fontes históricas, excluindo, assim, outros elementos que poderiam nos dar pistas sobre as ações humanas em tempos remotos, como diários, fotografias, objetos pessoais, entre outros.

No início do século XX, surgiu na França uma nova corrente de se pensar a História e a própria concepção de fontes históricas é ampliada cada vez mais. Conhecida como a Escolas dos Annales, esse movimento causou uma tremenda revolução na pesquisa histórica, expandindo os temas a serem pesquisados, bem como novas formas de pesquisar, não se baseando apenas nos documentos oficiais, como vinha sendo feito até anos atrás, mas utilizando uma grande quantidade de objetos e utensílios.

Com o passar do tempo, foi se desenvolvendo nesse novo método de estudar a História o que conhecemos como História Oral, ou seja, a utilização de depoimentos como forma de investigação histórica, algo até então não utilizado como ferramenta de pesquisa. Claro que toda essa nova metodologia que envolvia a oralidade tem uma forma metodológica de se utilizar.

Outro ponto que vale destacar quando falamos em História é a questão da verdade. Em História, e assim em outros elementos que compõem o que chamamos de Ciências Humanas, a verdade imutável, absoluta, não existe, existindo apenas o que chamamos de “verdade relativa”, ou seja, um fato histórico é baseado em fontes históricas, que dependem muito da interpretação do historiador, e a partir do momento que novas fontes são descobertas e problematizadas, a verdade que temos até o momento de algo pode se transformar. A verdade na História muda através do momento em que o historiador encontra novas fontes e evidências.

Catanduva

Nesse sentido, voltando para a questão da fundação de Catanduva, existem versões que até hoje, por falta de documentação, se transformaram em hipóteses, não podendo ser de total afirmação, pelo menos por enquanto, nenhuma delas.

A primeira versão diz respeito à família Figueiredo, de origem mineira, que teriam recebido terras de herança da família Moreira, chegando aqui no final do século XIX, aproximadamente em 1890. De acordo com essa versão, a família deu início a primeira lavoura da região e foi responsável pela construção da primeira casa de telhas no Bairro São Francisco, considerado o primeiro bairro da cidade. Essa tese está baseada nos relatos orais de pessoas antigas e depoimentos ligados à família presentes em jornais antigos da cidade de Catanduva.

A segunda versão diz que a cidade teria sido fundada por Antônio Maximiano Rodrigues, também oriundo de Minas Gerais, que juntamente com sua esposa, Ana Cândida Moreira, adquiriram cem alqueires de terras da Fazenda Barra Grande, também em 1890. Posteriormente, o casal realizou a doação de dez alqueires de terras para o patrimônio de São Domingos. Essa versão está baseada em um documento.

Há ainda uma terceira versão, descartada pelos estudiosos, que a cidade tenha sido fundada por Domingos Borges da Costa, conhecido como Minguta. Minguta chegou por essa região em 1892 e em 13 de fevereiro de 1897 adquiriu de Antonio Maximiano Rodrigues e sua mulher, dez alqueires de terra da Fazenda Barra Grande, para o cultivo de milho. Minguta era muito popular no povoado, morando em uma casa simples à beira de um rio que ainda até hoje leva o seu apelido. A versão da fundação de Catanduva por Minguta se deu mais pela popularidade que ele tinha em épocas passadas do que pela data que chegou em nosso povoado.

Se realmente a família Figueiredo herdou as terras de seus antepassados, não existe nenhum documento que confirme isso, embora, podemos utilizar a metodologia da História Oral para confirmar essa versão.  O único documento conhecido é o que diz respeito ao Sr. Antonio Maximiano Rodrigues, apontando-o como o fundador da cidade, confirmada pela escritura lavrada em 18 de setembro de 1890 pelo tabelião Evangelista Homem, no Cartório de Registro de Imóveis de Jaboticabal.

Fotos:

1. Domingos Borges da Costa, mais conhecido como Minguta. Alguns o consideram como fundador da cidade, versão descartada pelos historiadores.

2. Foto de Antônio Maximiano Rodrigues, considerado um dos fundadores de Catanduva. Sua versão apresenta um documento oficial: uma escritura lavrada em 18 de setembro de 1890 pelo tabelião Evangelista Homem, no Cartório de Registro de Imóveis de Jaboticabal.

3. Mesmo não tendo nenhum documento oficial, a versão da fundação pela família Figueiredo pode ser pesquisada através da História Oral. Nesta foto, Joaquim Alves Figueiredo, um dos possíveis fundadores da cidade.

Autor

Thiago Baccanelli
Professor de História e colunista de O Regional.