Fotografia poética: culto à memória ou à novidade?
Walter Benjamin (1934), em “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, pregou que o culto às obras sucumbiu à importância da exposição. A participação da imprensa e o destaque do cinema provocaram declínio aurático das referências culturais. “Generalizando, podemos dizer que a técnica da reprodução retira do domínio da tradição o objeto reproduzido”. A modernidade e a fotografia desferiram uma manobra contra a aura, entretanto as imagens cristalizadas ficaram responsáveis por relatos memorialísticos diante de vestígios afetivos e nostálgicos. É consenso que a sociedade industrial abre margens a novas liberdades estéticas e produzem outras formas de singularização. Culto à memória ou à novidade?
O Modernismo Brasileiro, na Fase Heroica, foi afamado pela obra literária “Pauliceia desvairada” (1922), de Mário de Andrade, que exprimiu uma poeticidade marcada pela memória e novidade. No Poema “Domingo”, o dia de descanso critica o crescimento vertiginoso da cidade de São Paulo. “Olhares acrobáticos [...] Tantos telégrafos sem fios! [...] sacrilégios picturais... [...] Contrastar! – Futilidade, civilização”. Os olhares paulistanos assistem às missas dominicais e consagram o rito cristão, contudo os movimentos do telégrafo desconectam o homem da religião, perante o caos urbano. As novas artes seriam sacrilégios importantes à renovação. São sujeitos que celebram eventos citadinos e omitem o tédio imperante.
O poema e seu método fotográfico capturam imagens da diversão paulistana. “Hoje quem joga?... O Paulistano [...] Para o Jardim América das rosas e dos ponta-pés!”. A violência, no esporte, e a influência europeia provam a alienação dos que fazem o lazer acontecer. A fotografia demonstra a tradição dos espaços citadinos. “Que vestido: pele só! [...] Automóveis fechados... Figuras imóveis... [...] E também as famílias dominicais por atacado entre os convenientes perenemente...”. A moda feminina e a exposição envolvem o desfile frenético de imagens, que objetivam o ideal consumista. Daí o caráter mecanicista edificar uma identidade propensa à panfletagem desenfreada, com vistas à propaganda ausente da verdadeira subjetividade, ou seja, manequins projetando aparências por conveniência.
O poema mostra como o cinema imperou o jogo imagético. “Central. Drama de adultério. A Bertini arranca os cabelos e morre. Fugas... Tiros... Tom Mix! Amanhã fita alemã... de beiços...”. A referência ao “Cine Central”, um dos grandes cinemas do Centro de São Paulo, mostra a atriz “Francesca Bertini” na efervescência do drama, como uma réplica do modus vivendi. O faroeste norte-americano alterna-se para as cenas de romance, ao expor rostos e beijos. O pendor cinematográfico faz o arquétipo girar o inconsciente coletivo, na esfera do marketing e dos símbolos. O ímpeto acompanha circunstâncias do cotidiano, à luz da reconfiguração identitária. Trazer incidentes à ficção pode propor novidades à solidificação cultural.
A canonização artística eleva o conflito entre realidade e ficção. “As meninas mordem os beiços pensando em fita alemã... As romas de Petrônio... E o leito virginal... Tudo azul e branco! Descansar... Os anjos... Imaculado! As meninas sonham masculinidades... – Futilidade, civilização”. A sensualidade despertada pelos filmes contradiz a pureza oriunda do rito cristão, visto que o imaginário e a moda da juventude seguem o choque entre lascívia e ingenuidade. O personagem “Petrônio” simboliza a denúncia à hipocrisia do sociocomportamento humano, pois a castidade e o pudor transitam as performances veiculadas em São Paulo. Dessa forma, a futilidade engrandece o desprezo à memória junto à valorização da nova civilização. A fotografia poética propõe que a singularização cultue a novidade paralela à memória tradicional e revela o outro lado do ser.
Imagem: Terraço do Café à noite (1888), de Vicent van Gogh
Autor