Filmes da Semana [06.05.26]
Suspiria
Do fim da pandemia para cá, nos últimos quatro anos, as distribuidoras viram uma janela de oportunidade para lançar, nos cinemas, filmes clássicos em versões restauradas, uma maneira de atrair tanto o cinéfilo para as salas quanto apresentar títulos de outrora para a nova geração. Retornaram aos cinemas recentemente edições de aniversário de blockbusters como “Tubarão”, “De volta para o futuro”, as franquias de cinema “Harry Potter” e “Crepúsculo”, bem como obras cult, como “Paris, Texas”, “Incêndios” e “Amores brutos”. Só no último fim de semana dois longas europeus de terror voltaram para a telona em ótima cópia restaurada em 4K: o italiano “Suspiria” (1977), de Dario Argento, e o mexicano “Veneno para as fadas” (1986), de Carlos Enrique Taboada, demonstrando que há espaço para filmes antigos seja em cinemas de shopping ou de rua. "Suspiria" é uma emblemática fita de terror que fez a cabeça do público cinéfilo e se tornou referência no gênero. É considerada a magnum opus do lendário cineasta italiano Dario Argento, hoje na ativa aos 85 anos, e uma das pérolas do horror fantástico. Psicodélico, brutal, com cenas fortíssimas de sangue e mortes escabrosas, o terror bruxo, cuja base é o giallo sobrenatural, acompanha a história de Suzy Bannion (Jessica Harper), uma jovem dançarina americana que chega a uma renomada escola de balé em Friburgo, no sul da Alemanha. Hospedada no local com mais de 10 garotas, que estão lá para serem treinadas para a dança, pouco a pouco suspeita que a academia é assombrada por uma antiga entidade. A moça ouve sussurros noturnos, bem como o ronco de uma mulher idosa; vermes aparecem no teto, e algumas das meninas desaparecem na calada da noite. A apreensão atinge não só Suzy, mas as colegas de quarto. As indagações das dançarinas são levadas para as diretoras da academia de balé, Miss Tanner (Alida Valli) e Madame Blanc (Joan Bennett), que não dão ouvidos. Até que Suzy vê o mal reinar ao seu lado. O impacto de “Suspiria” vai além do roteiro fabuloso: está também na estética visual alucinante, marcada por cores intensas vermelhas, pink e azul neon, ao lado da iluminação expressionista (inclusive na geometria dos quartos e enquadramentos, que remetem ao Expressionismo Alemão). A trilha sonora, da banda Goblin (que aqui assinam “Goblins”, e tinha como mentor o paulistano Claudio Simonetti), intensifica a experiência sensorial, criando um ambiente hipnótico, perturbador, claustrofóbico. Não tem jeito: saímos magnetizados de cada sessão de “Suspiria”, e olha que já vi o filme mais de 10 vezes, um de meus preferidos do mestre Argento. Olhem só: além do relançamento os cinemas, o filme ganhou uma edição oficial limitada em VHS no Brasil, gesto que resgata a aura analógica que marcou os anos 1980 e 1990 (foto abaixo). A cópia restaurada em 4K realça as cores deslumbrantes dessa obra-prima do cinema de horror, realizada pelo laboratório alemão TLEFilms, que corrigiu danos nos negativos de 35 mm. Vale lembrar que “Suspiria” é o primeiro capítulo da trilogia “As três mães”, seguido por “A mansão do inferno” (1980) e “O retorno da maldição - A mãe das lágrimas” (2007), que são independentes, mas tratam do mal sobrenatural. Em 2018 o diretor italiano Luca Guadagnino refez o filme, com uma nova linguagem, que ficou até boa, “Suspiria: A dança do medo”. Com quase meio século de existência, o filme continua a ser celebrado pela crítica e pelo público, e que bom foi redescoberto para voltar para a telona. Continua em cartaz pela segunda semana, com distribuição da FJ Cines.
O diabo veste Prada 2
Lotando as salas de cinema de todo o mundo, a continuação de “O diabo veste Prada”, 20 anos depois do original, virou um fenômeno inesperado e repentino. Assim como “Michael”, estreou muito bem nas bilheterias e logo se aclamou como um arrasa-quarteirão – no Brasil, por exemplo, as sessões andam abarrotadas de gente. Gostei do filme, é uma sequência que atualiza o original, mas prefiro o frescor do primeiro. Diretor, produtores e elenco retornam com tudo em seus icônicos personagens, em uma história que volta à crítica ao mundo da moda e da mídia, ambas em crise na era digital. A conceituada editora de moda Miranda Priestly (Meryl Streep), para driblar o colapso do jornalismo impresso, planeja formas de manter em pé a antiga revista Runway. Ela precisa urgentemente adequar o formato ao digital, já que a maior parte das revistas e jornais não sobrevivem mais no papel. O choque maior vem quando descobre que Emily Charlton (Emily Blunt), antes sua fiel assistente, ocupa hoje um cargo executivo em uma grife de luxo, ou seja, virou sua uma rival direta. Entra para abrir novos conflitos na trama a jornalista Andy Sachs (Anne Hathaway), que era estagiária de Miranda e agora procura por um novo emprego, após ser demitida; ela acaba voltando à Runway, onde terá de lidar com os estresses de Miranda, bem como com os dilemas da profissão em tempos de redes sociais e desinformação. O trio de mulheres entrega atuações formidáveis, com destaque para Emily Blunt, uma antagonista tão mesquinha quanto Miranda era no filme 1 – a atriz pode pegar indicações a prêmios no ano que vem. Stanley Tucci retorna como Nigel, o assessor de Miranda, e novos nomes aparecem, como Lucy Liu na pele de uma magnata da moda, Kenneth Branagh como o marido de Miranda, e até Lady Gaga como ela mesma, num momento glamuroso em que canta nos palcos do Fashion Week de Milão. Gostei especialmente do tratamento ao tema da crise do papel e da era digital, mostrando que em menos de 20 anos, de um filme para o outro, o mundo se transformou radicalmente (mais dinâmico e fugaz), com desgaste das grandes revistas, a explosão do marketing digital e a fragilidade das carreiras diante da velocidade da informação. E os figurinos seguem deslumbrantes, com assinatura da figurinista Molly Rogers, que demonstrava talento lá no passado com as roupas das personagens do seriado “Sex and the city”. Nos cinemas pela 20th Century Studios.
Autor