Festival de Berlim anuncia vencedores; ‘Yellow letters’ ganha o Urso de Ouro
Chegou ao fim a Berlinale 2026, com o anúncio dos premiados na última edição do festival. A capital alemã virou palco de um dos festivais mais importantes do cinema entre os dias 11 e 22 de fevereiro. Sob a neve e o frio intenso, a Berlinale reuniu milhares de pessoas nas diversas salas de cinema da cidade. A coprodução Alemanha e Turquia “Yellow letters”, do diretor alemão/turco Ilker Çatak, ganhou o principal prêmio, o Urso de Ouro. O Brasil esteve representado: o longa “Feito pipa”, do diretor cearense Allan Deberton, conquistou dois prêmios na mostra Generation - o Crystal Bear e o Grande Prêmio do Júri Internacional na categoria Generation Kplus. Confira abaixo a lista de todos os contemplados em todas as seções e categorias da Berlinale - e no final resenha de um dos melhores filmes que lá assisti, "Josephine".
Competição principal
Urso de Ouro: "Yellow letters"
Urso de Prata - Grande Prêmio do Júri: "Kurtulus (Salvation)"
Urso de Prata - Prêmio do Júri: "Queen at Sea"
Urso de Prata de Melhor Diretor: Grant Gee, por "Everybody digs Bill Evans"
Urso de Prata de Melhor Atriz: Sandra Hüller, por "Rose"
Urso de Prata de Melhor Coadjuvante: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay, por "Queen at Sea"
Urso de Prata de Melhor Roteiro: "Nina Roza", de Geneviève Dulude-de Celles
Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística: "Yo (Love is a rebellious bird)", de Anna Fitch
Melhor Primeiro Filme: "Chronicles from the siege"
Melhor Primeiro Filme – Menção Especial do Júri: "Forêt ivre"
Berlinale Documentary Award
Melhor Documentário: "If pigeons turned to gold"
Melhor Documentário – Menção Especial do Júri: "Tutu" e "Sometimes, I imagine them all at a party”
Melhor Documentário – Menção Especial: "Tutu" e
Generation Awards
Urso de Cristal de Melhor Filme no Generation Kplus: "Feito pipa"
Menção Especial na Generation Kplus: "Não sou um herói"
Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem no Generation Kplus: "Baleia 52 – Suíte para homem, menino e baleia"
Menção Especial na Generation Kplus: "Sob a onda do pequeno dragão"
Urso de Cristal de Melhor Filme no Generation 14Plus: "Chicas tristes"
Menção Especial na Generation 14Plus: "Uma família"
Urso de Cristal de Melhor Curta-Metragem no Generation 14Plus: "Memórias de uma janela"
Menção Especial na Generation 14Plus: "Allá en el cielo"
Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme na Generation Kplus: "Feito pipa"
Menção Especial no Generation Kplus: "Atlas do universo"
Prêmio Especial do Júri Internacional de Melhor Curta-Metragem na Generation Kplus: "Spî"
Menção Especial na Generation Kplus: "Sob a onda do pequeno dragão"
Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme na Generation 14Plus: "Chicas tristes"
Menção Especial na Generation 14Plus: "Matapanki"
Prêmio Especial do Júri Internacional Generation para Melhor Curta-Metragem na Generation 14Plus: "O fio"
Menção Especial na Generation 14Plus: "Memórias de uma janela"
Panorama Awards
Panorama Audience Award – Feature Film: "Prosecution"
Panorama Audience Award – Documentary: "Traces"
* Fotos extraídas do site oficial da Berlinale, em https://www.berlinale.de/en/home.html
Josephine
(EUA – 2026, 114 minutos, de Beth de Araújo)
Assisti a 16 longas na Berlinale de 2026, a maior parte em sessão de imprensa na Berlinale Palast, e “Josephine” foi o filme que teve mais aplausos da imprensa (composta por 1200 jornalistas e críticos de cinema do mundo inteiro). O aplauso acalorado como resposta não tem exagero nenhum: é um dos melhores títulos do Festival de Berlim, que me deixou extasiado. Na coletiva de imprensa, uma hora depois da exibição, com a participação do elenco, fui saber, pelas falas da diretora Beth de Araújo, que a história era verídica, baseada em uma ocorrência de estupro que ela presenciou quando tinha oito anos de idade. Tudo fez mais sentido me causando mais impacto. Beth, que tem descendência brasileira por parte de pai e chinesa por parte de mãe, vive em São Francisco há muitas décadas e escreveu o roteiro puxando essa dolorosa imagem do passado, de como foi atravessada por um trauma ao ser testemunha de um crime sexual. O filme começa com Josephine (papel cativante e de pura singularidade da garotinha Mason Reeves), uma menina de oito anos, caminhando pelo parque Golden Gate em São Francisco ao lado do pai, Damien (Channing Tatum). Ela anda mais à frente dele e caminha por um corredor de árvores altas, até que se esconde atrás de um tronco e vê algo estranho a poucos metros: é um homem cometendo estupro contra uma mulher. A garota observa sem entender a cena, até que Damien chega, percebe o ocorrido e corre atrás do criminoso, ligando em seguida para a polícia. Confusa, pois viu uma mulher gritar de dor e ser forçada a algo que não queria, a menina aguarda a polícia. E a partir daí sua rotina infantil é estraçalhada, sendo assombrada constantemente pela figura do abusador sexual (que aparece em suas visões, no quarto, na escola). Josephine desenvolve um comportamento violento, e os pais tentam encontrar uma solução para ajudá-la (quem interpreta a mãe de Josephine é Gemma Chan, em ótimo papel também). Mais uma questão surge e instalará uma nova crise na família e dentro do íntimo da menina, quando ela terá de depor no tribunal sobre o caso, já que é a única testemunha do estupro. Josephine passa a enxergar o mundo com um olhar duro, pessimista, reflexo do que viu no parque e da pressão que sofre agora para ir todo dia na delegacia relembrar o trágico ocorrido. Beth filma a menina em primeiro plano, com closes perfeitos para demonstrar a angústia silenciosa que a pequena protagonista enfrenta – e que é ela, Beth, no passado. A construção do filme mergulha na tensão familiar, com enfoque na instabilidade dos pais e no novo modo de enxergar a vida de Josephine (que perde um pouco do encanto da infância ao levar um baque como aquele). Recebeu o Grande Prêmio do Júri e o Prêmio do Público em Sundance no mês passado.
Autor