Falso Brilhante

Falso Brilhante completou 50 anos. Com 182 mil cópias, foi o mais vendido da carreira dela. Para entender esta obra-prima, temos que retroceder a 1969. Na Holanda, disse durante uma entrevista que o Brasil era governado por “gorilas”. Este fato só chegou ao conhecimento do exército em 1971. Sob coação e ameaças de “sérias consequências”, ela cantou o hino nacional nas Olimpíadas do Exército em 1972. Sem saber do contexto, a classe artística engajada promoveu o enterro simbólico de Elis, traduzido numa tira do cartunista Henfil, no jornal “O Pasquim”. A imprensa passou a retratá-la como uma cantora engessada, elitista, sem conexão com o público.

Foi então que Elis criou um audacioso espetáculo com ingressos a preços populares para se reaproximar do povo. A ideia era denunciar a situação do artista brasileiro em um roteiro que combinasse música, circo e teatro. Para isso, ela contava com uma banda competentíssima. O cenário do circo que proporcionava um formato itinerante e uma estética popular. Por fim, a dramaticidade de sua interpretação cênica.

A metáfora do Falso Brilhante refletia a armadilha da indústria fonográfica. O roteiro tinha o primeiro ato, “Descoberta”, que trazia a primeira infância, músicas de roda e o despertar do dom. O segundo, o “Aprimoramento”, refletia o amadurecimento profissional e lapidação técnica. O terceiro, “Engolido pelo mercado”, a indústria fonográfica descobre o artista e passa a controlá-lo. O ouro vira “Falso Brilhante”. Por fim, a “Crucificação”, o sacrifício final da arte em prol do caráter monetário e excessivamente comercial das gravadoras.

A sintonia fina entre a cantora e sua trupe foi forjada por meses de ensaio. O resultado foi um grande sucesso. Elis Regina calou os críticos. Foram 257 apresentações, ininterruptas em 14 meses, de quarta a domingo, com 46 canções dispostas em “pot-pourris”, declamações e interpretações completas em 90 minutos de apresentação. 280 mil pessoas assistiram ao show no Teatro Bandeirantes.

Elis lançou duas canções do então desconhecido Belchior: “Como nossos pais” e “Velha roupa colorida”, o que catapultou o lendário álbum do cantor, “Alucinação”. No entanto, Elis tinha que entregar um disco para a gravadora. O desafio foi reduzir 46 músicas para um álbum contendo 10 canções. Sem poder cancelar os shows, fez a gravação durante uma folga, em 48 horas. O feito foi possível por conta da harmonia entre a cantora e os músicos. Tudo em apenas um “take”. Inicialmente criticado por ter sido uma gravação abrupta e resumida do show, ganhou reconhecimento posterior, traduzindo o auge artístico de Elis Regina. A crueza da gravação capturou a essência visceral de uma artista com domínio de sua voz e de sua mensagem política. Com isso, Elis entregou sua obra definitiva.

Autor

Toufic Anbar Neto
Médico, cirurgião geral, diretor da Faceres. Membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura