Evocações funcionais entre o mal(dito) e o eru(dito)
A evocação cotidiana atua como energia para os seres humanos prosseguirem com a essência da vida. Para tanto, o sujeito reflete a existência e delimita possíveis ações condizentes com as circunstâncias propícias. Uma lenda, intitulada “Vaso com rachaduras”, de autor desconhecido, enaltece o discurso da natureza e as atitudes humanas, porque discute a concepção do ser mal(dito) e eru(dito). A narrativa é calcada na história de um homem, que transportava água, cotidianamente, utilizando dois grandes vasos: um utensílio era mais velho que o outro, logo já possuía pequenas rachaduras. Quando “o homem percorria o caminho até sua casa, metade da água se perdia”.
Diante do inexorável incidente, a narrativa estabelece o diálogo entre o vaso rachado e o homem, como forma de ressaltar o conflito – sujeito e natureza. O vaso rachado afirma: “– Quero pedir desculpas, já que devido ao meu tempo de uso, você só consegue entregar metade da minha carga”. Essa conversa aponta ao testemunho mal(dito) do vaso, que não consegue cumprir com suas funções e alcançar êxito. A relação sujeito-objeto expõe situações, como o indivíduo e a realização de seus desejos, a pessoa e a necessidade de auxílios, o personagem pretendendo um desfecho feliz, etc. O percurso carrega o intenso conflito, até a realização dos objetivos específicos.
Ciente dos objetivos alcançados, o diálogo persiste: “– Vê como a natureza é mais bela do seu lado? – comentou o homem. – Sempre soube que você tinha rachaduras, e resolvi aproveitar-me deste fato”. A evocação à função do vaso rachado engrandece o sentido paradoxal, já que as fragilidades do utensílio gasto não o impediam de produzir. As rachaduras remetem às diferentes noções temporais, visto que o sucesso depende da estação própria. Daí a necessidade da anulação do objetivo mal(dito), quando o objeto não se deu conta da efervescência da produtividade não pretendida. Isso denuncia a falta de visão global do sujeito em relação ao entorno frutífero.
O rito/percurso se torna profícuo. “Semeei hortaliças, flores e legumes, e você as tem regado sempre. Já recolhi muitas rosas para decorar minha casa, alimentei meus filhos com alface, couve e cebolas”. Enquanto o vaso rachado desperdiçava água pelo caminho, outro trabalho eru(dito) era desempenhado pelo homem. A dissolução da ideia errônea, que o vaso fez de si, esculpiu uma nova imagem. José Saramago (1997) dizia que “é preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”. Em certas ocasiões, a confissão alheia contribui para a evocação histórica e crescimento da personalidade. A ilha revela a solidão do ser, ou seja, momento solene de autodescobrimento.
A autoanálise do vaso rachado só ocorreu, quando o homem perguntou: “Se você não fosse como é, como poderia ter feito isso?”. Cercado por uma visão holística, o vaso rachado passou de mal(dito) a eru(dito), pois sempre deixou evocações funcionais na vida do “outro”. Júlia Domingues (2022) escreveu: “nem sempre o que damos é igual ao que recebemos. Mas se dermos o que somos, um dia, a vida devolve o que merecemos”.
Imagem: Doze Girassóis numa Jarra (1888), de Vicent van Gogh
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