Ética na advocacia: a confiança como maior patrimônio da profissão

Há profissões que se sustentam pela técnica, pela experiência ou pela força da palavra. A advocacia, porém, só permanece de pé quando tudo isso repousa sobre um fundamento maior: a confiança.

Quem procura um advogado, quase sempre, chega em momento difícil. Traz uma injustiça, uma acusação, uma perda ou uma esperança ferida. Entrega ao profissional sua história, seus medos, sua intimidade e suas expectativas.

Por isso, a advocacia não pode ser tratada como atividade comum. O advogado não vende promessas, não comercializa ilusões e não transforma a dor do outro em vitrine. A advocacia é função essencial à Justiça e exige postura, responsabilidade e compromisso ético.

A ética não limita a advocacia. Protege-a da banalização, da mercantilização e da falsa ideia de que tudo se justifica em nome da visibilidade, do engajamento ou da conquista desesperada de clientes.

Em tempos de redes sociais, essa reflexão é indispensável. Informar é legítimo; orientar a sociedade é necessário. O problema começa quando a informação passa a servir à autopromoção; quando a prudência cede lugar ao espetáculo; quando o advogado promete resultados ou se apresenta como solução milagrosa para questões que dependem de prova, contraditório e decisão judicial.

A sociedade precisa compreender: bom advogado não é aquele que promete vitória. É aquele que trabalha com seriedade, técnica, sobriedade e honestidade. A advocacia responsável não se mede pelo volume da voz, curtidas ou agressividade da propaganda, mas pela lealdade, discrição, coragem quando necessária e respeito às pessoas e instituições.

Nesse contexto, a Comissão de Ética exerce papel fundamental na OAB. Nossa missão não é apenas disciplinar ou punitiva; é também orientar, esclarecer, promover reflexão e preservar a dignidade da profissão.

Quando a ética é fortalecida, todos ganham: o advogado sério, o cidadão, o Judiciário e a Justiça, que depende de uma advocacia firme, independente e ética.

Ética não é discurso antigo nem formalidade profissional. Ética é concreta, atual e diária. Está no atendimento, nos honorários, no respeito às instituições, na orientação ao cidadão, na publicidade, no sigilo e na postura pública.

A grandeza da advocacia mora nas escolhas silenciosas: recusar promessa indevida, não explorar fragilidades, não atacar gratuitamente um colega, não transformar o processo em palco e não confundir combatividade com desrespeito.

A advocacia deve ser moderna, ocupar as redes, dialogar com a população e usar tecnologias. Mas modernidade sem ética é exposição vazia. Visibilidade irresponsável é risco para a classe.

No fim, a advocacia retorna ao mesmo ponto: confiança. Sem ética, perde sua alma. Com ela, cumpre sua missão mais nobre: defender direitos, proteger garantias e servir como voz da cidadania. Onde há advocacia forte, independente e ética, há Justiça mais respeitada, cidadania mais protegida e democracia mais viva.

Dr. Guilherme Santos

Presidente da Comissão de Ética, Disciplina e Fiscalização da Atividade Profissional da 41ª Subseção da OAB/SP - Catanduva

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