Estreias da Semana – Nos Cinemas e no Streaming - 04.02.26
Sequestro: Elizabeth Smart
Novo documentário investigativo da Netflix que está no top 10 dos filmes mais vistos nessa semana. Volta-se a um caso policial estranho ocorrido em 2002 em Salt Lake City, no estado americano de Utah, que permanece como um dos mais misteriosos dos Estados Unidos. Aos 14 anos, Elizabeth Smart foi raptada de dentro de seu quarto enquanto dormia. Ameaçada com uma faca por um homem chamado Brian David Mitchell, foi levada por ele a um cativeiro nas montanhas, sem comunicação com a família. Elizabeth ficou aprisionada por nove meses, enquanto familiares e a polícia a procuravam desesperadamente. O sequestrador cometia abusos psicológicos com a garota, utilizando para tanto uma doutrina religiosa que servia para privá-la de tudo. Havia com Brian uma cúmplice, Wanda Barzee, que vez ou outra saía com a menina pelas ruas, colocando disfarces em Elizabeth, para que não fosse reconhecida. É um caso instigante e perverso, contado pela própria sobrevivente, Elizabeth, que expôs as dolorosas memórias como maneira de exorcizar o passado. Ela conta com detalhes para as câmeras toda a trajetória de medo e violência sofrida – hoje ela é uma ativista pelos direitos das crianças e adolescentes. No doc há um extenso material inédito com fotos e reportagens antigas que ajudam a reconstituir o crime. Uma das primeiras estreias do ano da Netflix, é um documentário angustiante, dirigido por Benedict Sanderson, já ganhador de dois Baftas TV.
Quo vadis, Aida?
Disponível gratuitamente na plataforma do Sesc Digital, este é um dos grandes filmes de 2020, que fiz questão de rever na última semana – e novamente fiquei impactado com a obra peculiar da cineasta bósnia Jasmila Zbanic. Não é fácil assisti-lo, é um filme duro, amargo, que comove, uma história ficcional dentro de um contexto real, o Massacre de Srebrenica, ocorrido na Bósnia em 1995. No drama de guerra, Aida Selmanagic (Jasna Djuricic) é uma tradutora da Organização das Nações Unidas (ONU) que presencia a cidade bósnia de Srebrenica, uma zona segura durante a Guerra da Bósnia, ser tomada pelo exército sérvio. Dos milhares de reféns estão seus dois filhos e o marido. Correndo de um abrigo a outro, ela tenta de tudo para colocar o nome dos três na lista de pessoas a serem protegidas dos guerrilheiros. Jasna Djuricic é um espetáculo de atriz, dando humanidade e eloquência ao papel da tradutora confinada na região de guerra na corrida incessante contra o tempo para salvar sua família (ela é casada de verdade com o ator Boris Isakovic, que faz o general Ratko Mladić, responsável pelo genocídio em Srebrenica). O filme faz uma denúncia contundente ao genocídio na Bósnia, recorrendo a um dos fatos mais marcantes da Guerra da Bósnia, e decisivo para o fim dela, o Massacre de Srebrenica, em 1995, quando oito mil bósnios muçulmanos foram executados pelo exército sérvio. As vítimas tinham idade entre 15 e 80 anos, mortos a mando do temido general Ratko Mladić (muitos anos depois ele foi preso e condenado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade). O que houve ali foi uma limpeza étnica, em uma região considerada “zona de segurança” pela ONU, Srebrenica – os corpos dos bósnios foram enterrados em valas comuns, demorando anos para serem descobertos. O título é uma expressão latina de origem bíblica, significando “Para onde vai, Aida?”, que se refere à pergunta do apóstolo Pedro a Cristo ressuscitado quando fugia da perseguição do imperador Nero aos cristãos. No filme há uma perseguição nitidamente cruel de um povo a outro, por questões territoriais e religiosas, e o roteiro preciso não deixa nada se dissipar. Pode ser visto como um thriller político, e seu forte teor emocional poderá causar mal-estar (o desfecho é um dos mais amargos que já vi no cinema). A diretora e roteirista bósnia Jasmila Zbanic conta que o filme serve como uma reparação histórica – ela escreveu o roteiro adaptado do livro “Under the UN Flag: The international community and the Srebrenica genocide”, de Hasan Nuhanovic, um sobrevivente do massacre. Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro (representando a Bósnia e Herzegovina), concorreu ao Leão de Ouro em Veneza e foi exibido no Festival de Toronto. Fotografia e direção de arte ótimas, filmado na cidade de Mostar, a 300 quilômetros de Srebrenica.
Autor