Estradas e o mistério do trajeto
Vários gêneros textuais, embora distintos pelos contextos sugeridos, compartilham proximidades quanto à temática do percurso escolhido pelos sujeitos viajantes. São obras literárias, que revelam o mistério durante o trajeto realizado pelos passageiros. O Evangelho de São Lucas narra dois dos seguidores de Jesus, que caminhavam para o povoado de Emaús – “Sobre o que vocês tanto debatem enquanto caminham?”. Convém ressaltar que os dois discípulos não reconheceram a figura de Cristo pelo caminho. Na ocasião, o viajante misterioso menciona a essência dos escritos de Moisés, e o trajeto segue diante de uma escuridão – “Fique conosco esta noite, pois já é tarde”.
O poeta Drummond (1951) escreve “A máquina do mundo” expondo a dimensão noturna como símbolo do mistério – “e no fecho da tarde um sino rouco [...] céu de chumbo, e suas formas pretas”. A falência das utopias assumiu possíveis razões, ou seja, a tentativa de entendimento de mundo e a constatação do ser desenganado – “a máquina do mundo se entreabriu”. Essa abertura proporia a chegada ao Absoluto para quem já estava incrédulo e sem perspectivas na estrada de Minas. “Olha, repara, ausculta” são as direções da máquina, em um objetivo de explicar a essência da vida – “vê, contempla, abre teu peito” – a revelação buscava uma transcendência ao viajante contumaz.
Em 1967, o Cantor Milton Nascimento lançou a Canção “Travessia”, na qual “a voz nas estradas [...] o caminho é de pedras”. Duas categorias expõem a consciência: “voz” (estrada) e “caminho” (pedras) plasmam o ideal diante das peripécias do percurso. A forma eufórica objetiva a ampliação de horizontes, que parecem escassos na vida do caminhante. O verbo poético “vou”, na ambiguidade diretiva, sinaliza o tempo presente e futuro – “Vou querer me matar”. A exploração da locucão verbal confere desejos suicidas ao viajante melancólico, já que o presente parece avolumar as pedras da estrada. O futuro acessível é o mistério memorialístico, cuja meta é entrar para a História.
A viagem à História pode ser transcendental, como se vê na narrativa de “A Hora da Estrela” (1977), de Clarice Lispector, em que a personagem Macabéa, uma datilógrafa, chega ao Rio de Janeiro. A cidade grande, em si, já se torna uma estrada simbólica, por meio dos mistérios ascendentes na organização urbana. “A ação desta história terá como resultado minha transfiguração em outrem e minha materialização enfim em objeto”. A linguagem metafórica traz a densidade discursiva, no sentido de a cidade ser um longo percurso aos pedestres. O trânsito citadino reflete a alma de Macabéa, porquanto é fragmentar-se em várias passagens na estrada da vida.
A estrada da vida é mistério, por excelência, visto que, entre a elevação e a precipitação, podem acorrer aparições necessárias, com o objetivo de romper e iniciar tempos. Daí o trajeto ser o autodescobrimento do sujeito, em virtude de conduzir e ser conduzido pelas setas existentes nos caminhos. Os caminhos transformam os viajantes, porque no percurso há a problematização, que se tornará determinadas consequências. Mário Quintana dizia que “viajar é mudar a roupa da alma”.
Imagem: Estrada com Cipreste e Estrela (1890), de Vicent Van Gogh
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