Estatística não reflete o almoço na mesa
Os dados são um espelho da economia, mas nem sempre refletem a luz que chega até a nossa janela. O recente levantamento do Caged, mostrando a geração de 4.237 empregos formais na região de Catanduva de janeiro a novembro de 2025, é, em termos brutos, um sinal de vigor econômico. Contudo, a reação comum de muitos leitores — um torcer de nariz — revela uma fissura profunda: a distância entre a estatística e a vivência real. Por que a notícia de um saldo positivo de carteiras assinadas gera mais desconfiança do que alívio? A resposta talvez resida na qualidade do emprego, e não apenas na sua existência formal, bem como na constatação de que as vagas geradas são muito tímidas diante da necessidade. No primeiro ponto, a estatística do Caged contabiliza um novo contrato, mas ignora se esse posto é de salário mínimo, se exige jornadas exaustivas ou se é temporário. Para o cidadão que busca estabilidade, o saldo positivo se desfaz se ele ou seu vizinho está empregado em condições precárias. A percepção de que "o emprego existe, mas não é bom" se sobrepõe ao número frio. Além disso, a pulverização econômica também afeta a percepção. Se os novos postos estão concentrados em poucos setores ou municípios, a maioria da população não sente o impacto direto no seu cotidiano, reforçando a sensação de que "os números são para outro lugar". Além disso, como dito, ainda há a sensação de que não há novos empregos, à medida que as vagas são incipientes frente à demanda. O desafio para os gestores públicos é duplo. Primeiro, é preciso entender o que impulsiona esse saldo positivo, pois ele é real. Segundo, e mais crucial, é preciso investigar a qualidade desses postos. A verdadeira saúde econômica de Catanduva não será medida apenas pela quantidade de registros, mas pela capacidade desses empregos em garantir dignidade, sustento familiar e perspectiva de futuro. A confiança pública se reconquista quando a estatística conversa com a realidade do bolso e garante almoço na mesa.
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