Espelho – refletor e reflexo em projeções identitárias

A palavra “espelho” é latina, cujo significado é “olhar”, expondo a dualidade entre o processo refletor (exterior) e reflexo (interior), por meio do qual os olhos apreendem as imagens de cabeça para baixo, para, em seguida, o cérebro invertê-las. Esse fenômeno biológico guia à perspectiva socioemocional, na inexorável tensão entre a aparência e a essência, como se vê nas obras de Machado de Assis e J. K. Rowling. Nem sempre a luz, que emana do espelho, traduz contentamento.

No conto machadiano “O Espelho” (1882), o personagem Jacobina já aparece com a performance na sonoridade (já combina) e vê-se no espelho, no qual o refletor mostra uma “figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”. O conflito grotesco (sombra e figura), na presentidade, enaltece o luto e estampa a incompletude, diante da totalidade evidenciada. Tal disposição imagética, também, ocorre no Poema “Retrato” (1939), de Cecília Meireles – “Eu não dei por esta mudança [...]. Em que espelho ficou perdida a minha face?” –, sendo a projeção da disparidade ideológica. Trata-se de personagens descontentes com a identidade.

Jacobina, semelhante ao eu lírico ceciliano, “estava defronte do espelho [...]; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior”, porque o protagonista valorizava mais a função social do que a si mesmo. A monotonia da alma interior era insuficiente, logo Jacobina almeja a atuação do pretérito para preencher o presente do vazio existencial. As dualidades emocionais (prazer-desprazer, alegria-tristeza etc) refletem a intimidade do personagem em atividade de contemplação. O espelho da realidade sintetiza o teor do (re)conhecimento, a partir da verossimilhança calcada entre o real e o ficcional, visto que elucida o universo da fantasia.

Em Harry Potter e a pedra filosofal (2001), o personagem Rony alcança êxito, quando se autorreconhece “chefe dos monitores”. Na verdade, o “Espelho de Ojesed” trouxe a palavra “desejo” redigida ao contrário, ou seja, uma forma de escrita espelhada – “nada mais nada menos do que o desejo mais íntimo, mais desesperado de nossos corações”. A dicotomia alma interior e exterior alcança o ápice da intimidade em dois níveis sociocomportamentais: a presença coletiva e a ausência individual. Rony parece estar privilegiando mais a aparência do que a essência, na esteira das práticas narcisistas.

A complexidade do espelho, enquanto reflexo (as imagens que queremos), é permeado de frases narcisistas – “Espelho, espelho meu...”, “Os espelhos são usados para ver o rosto”, “Não se fazem mais espelhos, como antigamente” etc. Se o personagem da vida real utilizar “o espelho normal [...] olharia e se veria exatamente como é”, tendo em vista a valorização dos refletores (imagens que temos) ofertados ao modus vivendi e, posteriormente, refletirá sobre não sermos os mesmos, mas frutos de várias épocas. Há quem diga que “os humanos inventaram o espelho, mas então começaram a usar filtros, porque o espelho era honesto demais”.

Foto: Espelho, de Duane Michals

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.