Especial 'Psicose'
Psicose (1960)
Obra-prima da Sétima Arte, um clássico absoluto e divisor de águas no cinema de suspense, o filme “Psicose”, de Alfred Hitchcock (1899-1980), mudou a forma de se fazer filmes em uma época de grande transformação na indústria de Hollywood. Gêneros populares como comédia, musical e faroeste já tinham esgotado seu repertório. O colapso da Era de Ouro era anunciado com a lei antitruste para venda de cinemas e com o sistema de estúdios entrando em derrocada. E a TV começava a se popularizar. O cinema necessitava de uma reformulação imediata – o que surgiria nos anos 60 com a Nova Hollywood, trazendo diretores autores entregando obras extremamente originais e disruptivas na forma e no conteúdo. “Psicose” veio nesse período de transição, do velho para o novo cinema, pioneiro em muitos aspectos. O filme traz Marion Crane (Janet Leigh), uma jovem que rouba dinheiro de seu trabalho e foge de carro em busca de uma nova vida. Sozinha, na estrada sob chuva, faz uma parada no isolado Bates Motel, um motel antigo administrado pelo tímido e enigmático Norman Bates (Anthony Perkins). O que parecia uma noite de descanso se transforma em um terrível assassinato: Marion é morta a facadas no chuveiro enquanto toma banho. Tudo indica que quem a matou foi a mãe de Norman, Sra. Norma Bates, uma idosa que mora no casarão da família, aos fundos do hotel, e controla o filho todo minuto, não dando paz para ele. A trama de roer as unhas se desenrola em torno do mistério daquele assassinato e de outros que virão, bem como a identidade da mãe de Norman e da investigação doo desaparecimento de Marion. “Psicose” é considerado um Hitchcock subversivo, um filme classe A de um diretor inglês que já era consolidado no cinema americano com clássicos de suspense, como “Festim diabólico” (1948), “Pacto sinistro” (1951), “O homem que sabia demais” (1956), “Um corpo que cai” (1958) e “Intriga internacional” (1959), parte destes com um fino humor que poucos conseguiram atrelar. “Psicose” não, é um suspense de horror, um filme macabro e ousado para a época, com planos e enquadramentos que atingem o ápice da estética virtuosa do maior cineasta de todos os tempos. A cena do chuveiro é arrepiante, tudo embaçado, com a trilha memorável de Bernard Herrmann – e quem diria que um diretor, naquela época, deixasse sua protagonista morrer (e outra, ela aqui é uma anti-heroína, uma ladra que dá um golpe no trabalho e rouba a firma para viver bem ao lado de um namorado). A cena do chuveiro levou sete dias para ser filmada e utilizou mais de 70 ângulos diferentes - curiosamente, o sangue visto na cena era, na verdade, calda de chocolate (há um documentário super legal sobre os bastidores da gravação da cena, chamado “78/52: A cena do chuveiro de Hitchcock”, de 2017, dirigido por Alexandre O. Philippe). A direção meticulosa e o uso inovador da montagem criaram uma atmosfera de tensão que permanece insuperável. O filme não apenas redefiniu o gênero, mas também influenciou gerações de cineastas. A construção psicológica de Norman Bates é outro ponto firme, trazendo profundidade rara para vilões, tornando-o um dos personagens mais perturbadores já criados (cheio de camadas e complexidades que passaríamos aqui horas descrevendo). A crítica da época se dividiu, mas rapidamente o longa foi reconhecido como obra-prima, estudado em cursos de cinema e psicologia. Hitchcock comprou os direitos do livro de Robert Bloch, lançado um ano antes (que li e recomendo), de forma anônima e adquiriu todas as cópias disponíveis para manter o mistério da trama. Hitchcock era exigente não só dirigindo seus atores e aterrorizando as atrizes; fora do set também, por exemplo, fez questão de proibir a entrada de espectadores após o início da sessão, para preservar o impacto da narrativa. Indicado ao Oscar de atriz coadjuvante para Janet Leigh (única indicação da atriz, que pelo papel ganhou o Globo de Ouro – ela foi casada com Tony Curtis e é mãe de Jamie Lee Curtis), diretor (a quinta e última indicação dele como diretor, que nunca ganhou nada), fotografia (um trabalho impressionante de John L. Russell) e direção de arte. O clássico de suspense fez tanto a cabeça do público que rendeu três continuações diretas com o Anthony Perkins na pele de Norman Bates sendo duas para cinema (1983 e 1986) e uma para a TV (1990), além de um remake (de Gus Van Sant, de 1998), a série “Bates Matel” (2013-2017) e até um telefilme pouco conhecido que traz um novo personagem para a franquia, “Bates Motel” (1987, com Bud Cort).
Psicose II (1983)
Mais de duas décadas depois de “Psicose” (1960), numa época tomada pelo cinema slasher, Hollywood se debruçou em um novo capítulo de sangue do personagem Norman Bates, voltando a ser interpretado pelo sinistro Anthony Perkins. A história também segue 20 anos após os assassinatos no Motel Bates; Norman é liberado de um hospital psiquiátrico, considerado reabilitado. Ele retorna ao motel da família e também passa a trabalhar na cozinha de um restaurante, tentando reconstruir a vida. Mas logo se vê atormentado por telefonemas e cartas supostamente vindas de sua falecida mãe, Norma. Enquanto tenta provar sua sanidade, novos assassinatos brutais ocorrem a poucos passos dele, levantando dúvidas sobre a recuperação de Norman e de quem está por trás dos crimes. Paralelamente surge na história uma garota chamada Mary (Meg Tilly), garçonete que trabalha com Norman no fast food, e ainda Lila (Vera Miles), que retorna 20 anos depois em busca de respostas da morte da irmã, Marion Crane. “Psicose II” surpreendeu ao não ser apenas uma continuação oportunista, mas uma obra tão densa quanto a original, que explorava a fragilidade psicológica de Norman. Ele está reabilitado, mas a voz da mãe volta a ecoar em sua mente, enquanto ele a vê parada todos os dias na janela de casa o observando., mas Dirigido pelo australiano discípulo de Hitchcock Richard Franklin, dos filmes de terror e suspense “Patrick” (1978) e “Enigma da estrada” (1981), o filme vai para a linha do terror sanguinário – tudo o que Hitchcock economizou de violência lá, por ser outra época, Franklin descamba aqui, com cenas horrorosas de esfaqueamento, típicas do slasher movie que predominava. Norman é retratado como um atormentado, dividido entre o desejo de normalidade e os fantasmas do passado. Anthony Perkins entrega uma atuação intensa, humanizando Norman sem perder o caráter ameaçador. Conquistou fãs ao oferecer uma narrativa sólida e intrigante, e é para mim uma das boas franquias com continuações sólidas (como “O poderoso chefão” e os dois primeiros “Tubarão”). A atmosfera sombria e melancólica reflete o peso dos anos sobre o protagonista, e como o seu interior ainda é abalado. O roteiro foi escrito por Tom Holland, que mais tarde criaria “A hora do espanto” (1985) e “Brinquedo assassino” (1988). O filme foi rodado em grande parte nos cenários originais da Universal, preservados desde 1960, e preserva a ambientação do original, com um desfecho aterrador e cheio de dúvidas, que seria um convite para novas continuações (o que aconteceu).
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