'És cinza e às cinzas retornarás'

A fênix, pássaro da mitologia grega, atesta a representação da força humana em pleno voo transcendental, a fim de ser o fio condutor que conduz às funções de superação, porquanto, no ato de morte, a fênix entra em autocombustão e renasce das próprias cinzas. O intervalo entre morte e ressurreição é seguido por revelações, que darão origem a novos tempos e espaços, pela forma de calcar a essência em um fim altaneiro. A multiplicidade de atitudes humanas equilibra a formação de personalidades, pois as mudanças exploram a flexão razão – emoção do sujeito. Um exemplo proeminente é o declínio do aspecto lúdico, que gera a tentativa de buscar a zona racional e plasmar a imagem do flagrante em níveis de constatação.

Em 1930, Thomas Stearns Eliot publica o poema “Quarta-feira de Cinzas” e contextualiza o ato de conversão ao anglicanismo. A linguagem poética apresenta uma figura degenerativa – “Por que a águia idosa deveria esticar as asas?”. Trata-se de método de triunfo, aperfeiçoamento e plenitude, diante do símbolo de uma ave, que, esteticamente, revela a coloração pardacenta, equiparada ao cinéreo. O modo de representar uma águia idosa vai além da fragilidade imagética, porque desdobra o empirismo como produção das confissões humanas, ou seja, a historicidade – “Porque essas asas não são mais asas para voar mas apenas vans para vencer o ar”. O movimento de conversão alterna a vida, da anormalidade à razão eminente.

Manuel Bandeira lançou, em 1919, o “Poema de uma Quarta-Feira de Cinzas”, no qual o personagem Pierrot sofre – “Um Pierrot doloroso passa [...] feito de sonho e desgraça...” O nome Pierrot, do grego, significa Pedro e alude ao diálogo de Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja [...] Destruirei este templo, e em três dias o levantarei”. Nesse rito cinéreo, Pierrot recebe o sofrimento sentimental em processo onírico e desditoso, já que o amor à Colombina não é recíproco; Pedro faz pensar no enigma da terra em construção, tendo em vista a necessidade de dissolução da personalidade frágil, com o objetivo de ser um líder eclesiástico; e Cristo, a pedra angular, destruiria e refaria o próprio corpo em oferta.

O efeito ofertório (entrega e retorno) mostra a passagem da vida e da morte, uma vez que contagia as aparições nos festejos, entre catástrofes e recomposições. Aníbal Machado, na década de 30, escreveu “A Morte da Porta-Estandarte” cuja narrativa escatológica concentra-se no assassinato de uma porta-estandarte em pleno Carnaval – a temática do conto foi retratada no samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, em 1975. “O nosso amor foi uma chama... Agora é cinza, tudo acabado, nada mais”. A centralidade das marchinhas ornamenta a questão do luto como oportunidade de criação, ou seja, a dualidade – “tudo acabado”, no ideal de fim e começo contemplativos. Queda de máscaras e libertação de identidades.

A (trans)figuração cria um ritual cinéreo, por intermédio do rebaixamento cabal, porquanto a despedida ao passado projeta a lembrança do devir. A metamorfose usa a técnica da visão ascendente, em que o sofrimento individual pretende a proliferação de novidades. De início, os contextos sofrem uma visão turva a respeito dos incidentes catastróficos, contudo, em seguida, abrem horizontes esperançosos. O devocional cinéreo tange as paixões inebriantes, por conta da aparição latente. Johann Wolfgang Von Goethe dizia que “as nossas paixões são verdadeiras fênix. Quando a mais antiga arde, renasce uma nova das cinzas da primeira”.

Imagem: Fênix (2024), de Olha Komisaryk

Autor

Prof. Dr. John David Peliceri da Silva
Formado em Letras, em Direito e Pedagogia. Mestre, Doutor e Pós-doutorando em Letras pela Unesp. Atua como Supervisor Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Catanduva.