Empreendedorismo por necessidade
Os números recordes de abertura de empresas no país, que superam em 19% o ano anterior, indicam um movimento robusto de formalização e iniciativa. Contudo, é preciso analisar a motivação por trás dessa onda. Para uma parcela significativa da população, a decisão de abrir um negócio próprio não é primariamente uma estratégia de crescimento ou ambição de mercado, mas sim a única alternativa de subsistência em face do desemprego persistente. Quando o mercado de trabalho formal se mostra restritivo, o empreendedorismo se transforma em um ato de sobrevivência. O MEI, em particular, surge como a porta de entrada mais acessível para a geração de renda, permitindo que indivíduos transformem habilidades, conhecimentos ou pequenos capitais em um meio de sustento para si e suas famílias. Essa informalidade transformada em formalidade é a linha de frente contra a vulnerabilidade econômica. No entanto, essa realidade carrega um duplo peso. Por um lado, é fonte de esperança — a chance de construir um futuro melhor, de ser o próprio patrão, de ter autonomia sobre o próprio tempo e esforço. A possibilidade de fechar o ano com um negócio ativo, mesmo que pequeno, injeta otimismo naqueles que viram outras portas se fecharem. Por outro lado, expõe a fragilidade estrutural: a necessidade de recorrer ao empreendedorismo como tábua de salvação sinaliza a insuficiência de postos de trabalho formais e de qualidade. Apesar das dificuldades inerentes ao início de qualquer empreendimento, a persistência desses novos empresários é o que move a economia. Eles representam a força criativa que, mesmo diante da adversidade, insiste em gerar valor e dignidade. O desafio para as políticas públicas, portanto, é duplo: apoiar a formalização e o crescimento desses negócios, mas, fundamentalmente, criar um ambiente econômico que ofereça oportunidades de emprego estáveis, garantindo que o empreendedorismo seja uma escolha de prosperidade, e não apenas uma necessidade imposta.
Autor