Do corpo à arvore: advento natalino e historicidade
A figura do “Papai Noel” remete à tradição nórdica, na qual Odin seria um velho grisalho e barbudo, que entregava presentes e doces às crianças. No costume cristão, São Nicolau desempenhou ações fraternas e inspirou a imagem do Papai Noel, na cultura ocidental. Clarke Moore escreveu o Poema “Uma visita de São Nicolau” (1823), o eu lírico afirma que está “a esperar São Nicolau para encher aqueles pés”, no sentido de iniciar os ritos caridosos. A origem do nome “Nicolau” indica o sucesso da população e simboliza a ascensão social – os anos profícuos.
Esses ritos anuais remetem ao símbolo do nascimento, porquanto as alternâncias cronotópicas demonstram as fases da vida. O miniconto “O velho” (1973), de Verônica Stigger, discute a sobreposição imagética (a identidade natalina e a degeneração vital). O narrador inicia mencionando que “começaram pendurando uma bola vermelha em cada uma das orelhas do velho”, pelo hibridismo discursivo: a condecoração natalina (nascimento) e a deterioração corporal (morte). Em seguida, o corpo do velho sofre mutações anuais, durante um período de oito anos.
“No ano seguinte [...] havia bolas douradas, prateadas, brancas, azuis e verdes, que pendiam também dos cabelos e da barba”. A riqueza imagética mostra a expansão corporal e alude à altura de uma árvore natalina – o corpo humano e o sistema nervoso tipificam os galhos e os ramos. Os fios de cabelo e barba enaltecem o sentido do nascimento, ou seja, a vida sendo tecida, fio a fio.
“No outro ano, eles dependuraram bolas de vários tamanhos e cores também nos buracos do nariz e nas pestanas do velho”. A caracterização faz referência às sondas no nariz, enquanto passagem enfermiça – as pestanas justificam os sons necessários à duração da vida. “No quarto ano [...] adornaram o velho e sua cadeira de rodas com fitas verdes e pequenos ramos cheirosos”. As rodas personificam a Terra e suas passagens, que, em seguida, engrandecem a árvore genealógica.
“No ano sucessivo [...] galhos de pinheiro [...] e bolas coloridas e prenderam debaixo das axilas do velho”. As partes do corpo humano, que contenham pelos, direcionam a narrativa ao declínio, seguindo “começo, meio e fim”. “No outro ano, [...] grandes galhos de pinheiro [...] postos debaixo das pernas, dos braços” e efetivam a tentativa de reter a vida corporal do velho, “atrás do saquinho de mijo e entre as pantufas peludas e o apoio para os pés na cadeira de rodas”.
Do corpo humano à árvore natalina – “No sétimo ano, pacotinhos de papel [...] um belíssimo enfeite cor de anil no alto da cabeça”. A altura fundamenta a posição da estrela significando nascimento e consagração memorialística: o cânone na árvore genealógica. “No último ano [...] acrescentaram luzinhas piscantes [...] que percorriam os infindáveis tubos de alimentação, respiração e excreção do velho”.
O desfecho carrega o acender e apagar das luzes, no ritmo dos batimentos cardíacos e pela presença dos intervalos da vida. A imagem do velho aglutina o formato da árvore natalina, expõe mudanças de identidades e abre às novidades cronotópicas. O ato de condecorar marca a essência memorialística, que será cravada às futuras gerações, por meio do legado histórico – sempre (re)nascimento.
Foto: Autorretrato (1889), de Vicent Van Gogh
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