Do acaso ao inexprimível
O flagrante do sujeito, diante de uma grandeza, nas obras literárias, torna latente o âmbito da imaginação, porquanto expõe as relações humanas à mercê do acaso, que pretende testemunhar circunstâncias inexoráveis. O modo, com que esse acaso sugere sustentáculo à consagração dos acontecimentos, fornece nexos de consciência pela recuperação memorialística. O plano de expressão retumba, de acordo com a imaginação, que, segundo Immanuel Kant (1790), excede o método empírico. Na verdade, são imagens celebradas enquanto categoria inexprimível e ocasionadas por procedimentos históricos. As cenas da própria história oprimem a mente do sujeito, visto que eleva a consciência e conduz o contemplador à reflexão sobre as concepções da existência.
Em 1973, o escritor Rubem Fonseca escreveu o conto “Passeio Noturno”, no qual o enredo traz um personagem diante do mistério citadino – “Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher?”. A falta de percepção, durante o trânsito, manifesta a perturbação socioespacial e a reflexão a respeito dos transeuntes. A presença da semiescuridão confronta a contemplação e os impasses do narrador meticuloso, pois a sondagem imprime a inacessibilidade. É precisamente a divagação notívaga que expressa as vontades impenetráveis, a ponto de o contraste temporal surpreender: a escuridão esclarece mais os desejos do que a claridade. A grandiosidade noturna encaminha à autorreflexão.
O cantor Lenine, ao lançar a música “Paciência” (1999), inflou a linguagem poética no processo de autorreflexão – “Até quando o corpo pede um pouco mais de alma”. Desacelerar o modus vivendi é a desrealização das consolidações pessoais, no sentido de adentrar a dissolução “corpo e alma”, pela ideia de “vida tão rara”. A referência à vida é oriunda dos textos sagrados – “Porque a vida de uma criatura está no sangue”. O fluxo sanguíneo simboliza o trânsito da história, em que o acúmulo de passagens impede o protagonista de viver sua narrativa, ou seja, este é vítima do acaso. O acaso permite o fenômeno insigne de vida, junto ao inexprimível.
Com efeito, a canção “Feito pra acabar” (2010), por Marcelo Jeneci, profere indagações inexprimíveis – “Quem me diz da estrada que não cabe onde termina?”. A máxima concretude da estrada conduz ao abismo opressor, como se o sujeito reconhecesse o caráter efêmero do trânsito histórico. “Quantas são as dores e alegrias de uma vida, jogadas na explosão de tantas vidas, vezes tudo que não cabe no querer”. O questionamento, à base do sublime matemático, coloca o indivíduo frente ao Absoluto, que não lhe é acessível. Do subjetivo ao consensual, a explosão do acaso interfere no percurso alheio, como se as vidas não suportassem os eventos inexprimíveis. O autorreconhecimento favorece o sentimento de impotência.
A impotência apresenta-se cindindo a dança da vida – “Vai saber se olhando bem no rosto do impossível”. O aniquilamento da perspectiva rotineira elucida uma realização potente, de sorte que a própria imagem refletida não é suficiente para a contemplação, porquanto o rosto transcende tal qual um abismo imperceptível. Friedrich Nietzsche, em sua obra “Para além do bem e do mal” (1886), ressaltou: “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Aqui, o silêncio interrompe os pensamentos racionais e conduz o sujeito a sensações vertiginosas, tendo em vista um duplo movimento de elevação abismal: o sujeito olhando (abismo memorialístico) e o sujeito sendo olhado (abismo histórico). Se o acaso guia ao inexprimível, Titãs (2001) já cantava: “o acaso vai me proteger”.
Imagem: El abismo de su dolor (2009), de Ablsay Puentes Rodriguez
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