Direcionamentos recordativos na fragilidade existencial
As lembranças vão além do simples ato de voltar ao passado, porquanto a evocação do presente da memória enaltece a subjetividade do sujeito na história. A necessidade de transcender o presente relaciona-se à imagem sentimental, que proporcionara prazer, durante as circunstâncias efêmeras. Santo Agostinho, em “Confissões” (397-400 d.C.), dizia que as experiências permanecem na essência da alma, pois a recordação imagética está omitida no conjunto memorialístico. Assim, os novos incidentes podem resgatar lembranças, com o objetivo de intensificar a permanência dos acontecimentos e discutir a própria existência humana. Nesse aspecto, o indivíduo recria a própria identidade entre o passado e o presente.
O conto “A Estrutura da Bolha de Sabão” (1991), de Lygia Fagundes Telles, apresenta uma narradora-protagonista encontrando um ex-marido, que é físico e pesquisador a respeito das bolhas de sabão. O encontro torna-se intenso, quando o ex-marido está acompanhado da esposa, logo a narradora-protagonista percebe que os sentimentos amorosos retornam frágeis – “bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco”. A metáfora da bolha ilustra o interior da alma humana tal qual o outono (junção do calor e frio = morno). A bolha sinaliza o modo existencial, por meio da brevidade sentimental, que ativa o fluxo de consciência da narradora-protagonista, ao ver o ex-marido doente.
As camadas narrativas brincam com memória e realidade. “De quando em quando me olhava interrogativo, sugerindo lembranças mas eu sabia que era por delicadeza”. O ex-marido, em afastamento emocional, é movido pela razão, a ponto de provocar lembranças, como um ato sociável. A bolha de sabão, nesse momento, simboliza a efemeridade das emoções, de sorte que a realidade inexorável garante acesso à satisfação memorialística. A narradora-protagonista procura lidar com a perda do relacionamento, validando as passagens históricas da infância, ou seja, tentativa de ancorar sentimento e concretude – o caos emocional da narradora. O impacto do reencontro associa tempos e espaços e promovem sentidos figurativos.
No clímax do reencontro, a narradora-protagonista almeja subterfúgios. “Comecei a sentir falta de alguma coisa, era do cigarro? Acendi um e ainda a sensação aflitiva de que alguma coisa faltava, mas o que estava errado ali? Na hora da pílula lilás ela foi buscar o copo d’água e então ele me olhou lá do seu mundo de estruturas. Bolhas. Por um momento relaxei completamente, “Jogar?”. Rimos um para o outro”. O cigarro carrega a função de eliminar o sofrimento e demonstra a dependência emocional, visto que a abstinência do pretérito molda as recordações. A alusão à “pílula lilás” traz a dificuldade de lidar com passado e presente, uma vez que a “bolha” desempenha o caráter ilusório, para estancar a dor da existência.
O processo enfermiço é calcado por reflexões sobre relacionamentos. “O telefone tocando será que eu podia?... Saiu e fechou a porta. Fechou-nos. Então descobri o que estava faltando, ô! Deus. Agora eu sabia que ele ia morrer”. Aqui, a narradora-protagonista atesta a consciência de que o sentido da morte causa o modo de alternância socioemocional. O som do telefone faz ruptura entre o passado velado e presente irrefutável, por isso a possibilidade memorialística torna-se crucial no contato da protagonista com o mundo. Na sequência narrativa, a porta fechada chama o autoconhecimento, haja vista o isolamento dos corpos, outrora, unidos. A busca frenética destaca a fragilidade do ser, em direcionamentos recordativos, entre os quais o conceito de morte assemelha-se à bolha de sabão, enquanto vida e morte identitárias. Freud dizia: “Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte”.
Imagem: Where Love Begins (1951), by Arthur Saron Sarnoff
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