Crise de confiança

O arquivamento do inquérito policial que investigava o ex-bispo de Catanduva, dom Valdir Mamede, por suposta violência sexual, levanta profunda inquietação na comunidade. Embora o Ministério Público tenha justificado a decisão pela "fragilidade probatória", o núcleo da consternação reside nas admissões feitas pelo investigado durante a apuração. O fato de o religioso não negar a existência de encontros íntimos, alegando consensualidade, mas admitindo relações com a vítima e com outros seminaristas, cria um abismo ético que abala as fundações da fé e da moral eclesiástica. A Igreja Católica, em seus preceitos mais basilares, exige de seus líderes — bispos e padres — um compromisso de celibato e conduta moral irretocável, pautada na castidade e santidade. A confissão de envolvimento em relações íntimas, mesmo que classificadas pelo próprio investigado como consensuais, confronta diretamente esses pilares. Para os fiéis, a autoridade moral do clero depende intrinsecamente da adesão estrita a esses votos. Quando figuras que deveriam ser exemplos de retidão são expostas em situações que contradizem frontalmente os dogmas que pregam, a comunidade se sente não apenas desapontada, mas traída. A consternação gerada por essas revelações vai além da esfera jurídica; ela atinge o campo da confiança institucional. A comunidade espera que as instituições religiosas mantenham um padrão de conduta que justifique a fé depositada nelas. O arquivamento focado na ausência de violência física não apaga a sombra lançada sobre a conduta desses religiosos. A seriedade dos fatos reside na dissonância entre o que é ensinado e o que é praticado nos bastidores do poder eclesiástico. É urgente que a Igreja reflita sobre como garantir a integridade de seus membros e restaurar a credibilidade perante aqueles que buscam amparo e orientação.

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Da Redação
Direto da redação do Jornal O Regional.