Crime e Fantasia (baseado num sonho real)
A coluna de hoje traz a reprodução ipsis litteris do artigo do respeitado Salvador das Quantas, publicado no jornal Folha de São Paulo, no “Caderno Cotidiano”, na última terça-feira do ano de 2025 e que teve muita repercussão na mídia principalmente de São Paulo. – “O hotel três estrelas localizado na região central da cidade estava com um bom índice de ocupação. Os quartos, apesar de simples, compunham de duas camas de solteiro confortáveis, banheiro com ducha, armário, mini cofre, TV smart da LG de 43”, frigobar com água, cerveja e refrigerante e ainda ar condicionado Split. Da janela, tipo veneziana, era possível contemplar a imensidão de toda a zona sul da cidade e, bem mais ao fundo o anel superior do estádio do Morumbi. No quarto 115 estava hospedado o são-paulino de sobrenome Tambelioni que havia feito o check in no final daquela tarde e que, por razões que ele desconhecia tinha um desafeto que o mantinha à espreita desde à época de uma briga de torcida organizada. Richard, por sua vez deu entrada no mesmo hotel pouco tempo depois ocupando propositadamente o quarto 116, após subornar uma das funcionárias da recepção que lhe informou o nome e o número do quarto do ocupante ao lado que viria a ser a sua vítima. Tambelioni fora a São Paulo especialmente para assistir ao jogo do seu time de coração que seria na tarde do dia seguinte. Na manhã seguinte, por volta das 10h00 horas Richard bateu na porta do quarto 115 e rapidamente se escondeu no seu quarto apenas para se certificar se o vizinho já estava acordado. Ao ouvir que a porta se abriu, aguardou alguns segundos e repetiu o gesto, mas desta vez de arma em punho dotada de silenciador. Tambelioni abriu a porta e ao curvar-se expondo o tórax para fora do quarto foi atingido por dois disparos praticamente à queima roupa e sem a mínima chance de defesa. O primeiro no peito e o segundo na cabeça tendo morte instantânea. Logo em seguida, após fechar a porta do quarto da sua vitima para que ninguém de imediato se desse conta do ocorrido, Richard escondeu a arma na sua mochila, lavou com bastante sabonete as mãos para evitar resquício de pólvora, desceu até a recepção e fez o check out pagando o valor de R$1.499,00 com cartão de débito irrastreável. Naquela tarde acompanhou o noticiário pela TV e num dos programas assistiu a entrevista do delegado que se fazia acompanhar de um investigador e que estava cuidando de esclarecer o caso. Na entrevista o agente policial informou que estava suspeitando do hospede do quarto 116 e que, embora se cadastrando com nome falso, poderia ser identificado talvez pelo cartão de débito. Passados dois dias Richard, acompanhado de um amigo foi ao mesmo hotel e, por razões que não se não explica, ele queria visitar o quarto 115 que tinha sido ocupado pela vítima. No quarto estava hospedado um sinhorzinho que parecia octogenário e que não demorou muito a sair. Antes que a porta se fechasse e, sem que o hospede percebesse, Richard adentrou ao quarto enquanto o seu amigo ficou aguardando no corredor, próximo da porta de emergência. Nesse momento, talvez informados pela recepção, surge em direção ao quarto o delegado e o investigador, ambos de media estatura, sendo o delegado de pele clara e cabelos castanhos enquanto que o detetive de pele mais escura e cabelos pretos. Os dois homens eram bem menores do que aparentavam ser na imagem da TV. Richard conseguiu se esconder no armário do quarto e seu amigo foi algemado e levado à delegacia, alegou que estava no hotel por mera curiosidade para tentar ver o cenário onde ocorrera o crime. Sem a polícia conseguir provar a participação e envolvimento dele no crime, foi liberado com a determinação expressa de não se ausentar da cidade até segunda ordem. Isso não o impediu de continuar exercendo a presidência de uma associação de classe por ele fundada e que funcionava próximo à delegacia. Não muito tempo depois Richard estava tentando localizar algumas pequenas trouxas de drogas escondidas num caminhão velho que havia vendido e se deparou com o seu amigo. Trocaram algumas palavras e foram observados à distância pelo detetive que acompanhou o caso sem que ele nada pudesse fazer para esclarecer o homicídio. Fato é que, a arma usada nunca foi localizada e o verdadeiro assassino tampouco identificado pela polícia, resultando em mais um crime a engrossar a estatística de crimes não esclarecidos em São Paulo.” P.S. Salvador das Quantas, não existe, como também nunca foi publicado o artigo mencionado e tampouco é real o crime descrito. Logo, tudo não passa de ficção. O que é realidade no artigo, entretanto, é a descrição praticamente fiel de um sonho vivenciado por este colunista na madrugada do segundo dia do ano que se inicia, sendo que dele fazem parte todos os personagens, assim como hotel e o crime descrito. Os nomes do assassino e da vítima foram levemente alterados e alguns detalhes também foram acrescentados para ilustrar a narrativa. A conclusão é que, diante de tanta violência, a mente reproduz, em forma de fantasia, o medo cotidiano da impunidade e dos crimes não esclarecidos.
Autor