Coxinhas com carne de gato?
A primeira palavra do título de hoje poderá abrir o apetite de quem está lendo. Depois das outras palavras, nem tanto. Irei comentar sobre um dos produtos mais consumidos no Brasil: as nossas maravilhosas coxinhas.
De maneira geral, a coxinha, tal como a conhecemos hoje, tem sua origem no século XIX, na região da Grande São Paulo. Segundo alguns historiadores, especialistas na história da alimentação, a coxinha foi desenvolvida durante a industrialização do Estado, para ser comercializada como um substituto mais barato e mais durável às tradicionais coxas de frango que eram comercializadas nas portas da fábrica. Era um produto saboroso, que saciava bem a fome e o preço cabia nos bolsos dos trabalhadores que, naquele momento, enfrentavam péssimas condições de trabalho e remuneração baixíssima.
Outras versões
Porém, há quem discorde que esse alimento tão presente na mesa dos brasileiros e item essencial nos diversos bares de nosso país tem sua origem totalmente brasileira.
De acordo com o professor Paulo Veríssimo, do curso de Gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi, este revela que “[...] trata-se de uma receita adaptada da culinária francesa e que as referências ao salgado podem ser encontradas na obra de um famoso chef de cozinha francês, Antonin Carême (1784-1833), escrita no ano de 1843 em Paris, nascida da deliciosa coxa-creme, que é francesa”.
Ainda de acordo com o pesquisador, duas são as lendas que explicam como a coxinha pode ter sido preparada pela primeira vez no Brasil.
A primeira dela remete o início da década de 1920, na cidade de São Paulo, que vinha se desenvolvendo industrialmente. Regiões como a de Santo André abrigavam grandes fábricas e trabalhadores, que precisavam se alimentar gastando pouco. E era comum que eles matassem a fome nas barraquinhas dos vendedores ambulantes, que negociavam pedações fritos de frango, como coxa, sobrecoxa e peito, nas portas das fábricas na hora do almoço. Diante disso, alguém teve a brilhante ideia de desfiar a carne do frango, envolver numa massa de batata, modelar na forma de uma coxa, fritar em óleo quente e em seguida vender em frente às fábricas. O sucesso foi garantido.
A outra versão da história, extremamente absurda, por sinal, conta que na cidade de Limeira, especificamente na Fazenda Morro Azul, no final do século XIX, teria vivido a família real brasileira durante certo período. Segunda esta versão, a princesa Isabel e seu marido, o Conde D’Eu, escondiam da Corte no Rio de Janeiro um filho que teria deficiência mental.
A história conta que o prato preferido da criança era coxa de galinha e que, certa vez, a cozinheira da família não tinha quantidade suficiente para servir. Prevendo a gritaria do menino por falta de seu alimento predileto, resolveu transformar uma galinha inteira em “coxas”. O filho da princesa aprovou tanto o novo prato que as “coxinhas de galinha” teriam passado a fazer parte das refeições diárias da família. Depois disso, teria sido um pulo para que os parentes viessem visitar a família levando o quitute à corte carioca e aos salões de nobreza.
Porém, o mesmo professor Veríssimo ressalta que “esta história, até que romântica, não passa de uma lenda urbana, pois é sabido que tanto a Princesa Isabel quanto seus filhos viveram no Rio de Janeiro até a queda da Monarquia, em 1889, e pelo que se sabe, nenhum deles tinha deficiência mental”.
Casos surpreendentes
Após esse histórico apetitoso inicial deste maravilhoso quitute que encontramos muito no Brasil, muitos casos estranhos são noticiados pela mídia a respeito da fabricação do produto. Saindo dos sabores tradicionais, como frango ou carne bovina moída, é possível encontrar nos sites de buscas uma série de notícias onde pessoas produzem esse quitute com carne de cachorro, gato, pomba, e, por incrível que pareça, denúncias relatando coxinhas produzidas com carne humana.
Posso citar, por exemplo, uma investigação do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro, no ano de 2015, onde foi identificado uma pastelaria no Rio de Janeiro onde cachorros que haviam sido mortos a pauladas eram congelados para a produção de recheios de pastéis e outros salgados, como coxinha, por exemplo. A lanchonete era comandada por chineses e de acordo com depoimento do dono do estabelecimento, “o uso de carne de cães na produção de pastéis é comum em lanchonetes chinesas espalhadas pela cidade”. Inicialmente, o dono da lanchonete chegou a dizer que não sabia que o abate de cachorro era proibido no Brasil. Mais tarde, porém, ele admitiu que sabia da ilegalidade e que recolhia os animais nas ruas da zona norte.
Em um caso mais bizarro e cruel, registrado em Pernambuco, no ano de 2012, temos a produção de coxinha com carne humana. Três pessoas mataram, esquartejaram e enterraram duas mulheres no quintal de sua casa e utilizava a carne para fazer salgados – coxinhas, rissoles, empadas, entre outros.
De acordo com relato de uma das assassinas à Polícia Civil de Pernambuco, ela confessou que parte dos salgados que fazia para vender na cidade eram recheados com a carne das vítimas. “Depois que eles esquartejavam, a carne era congelada, desfiada e também utilizada para alimentar a família, inclusive dando partes dos corpos para a criança que morava com o trio de assassinos”, relata o delegado Wesley Fernando, que estava à frente do caso.
Além disso, segundo relato da assassina, a parte preferida era o coração das vítimas. Mas nada sobrava. Eles também usavam o fígado e os músculos das pernas que eram fervidos e ingeridos numa espécie de ritual macabro.
Catanduva
Deixando de lado toda essa brutalidade e selvageria com corpos de seres humanos, esses dias, pesquisando sobre outro assunto nos jornais antigos de Catanduva, deparei-me com uma notícia interessante publicada no jornal A Cidade, de 9 de agosto de 1961: este trazia uma denúncia que gatos da cidade estavam sendo roubados para se produzir coxinhas. Como achei o tema interessante e exótico, acabei transcrevendo a matéria, no qual reproduzo logo abaixo.
“Em dia desta semana recebemos a visita em nossa redação, da pessoa residente à Rua Sergipe, que veio ao jornal para denunciar situação que se lhe apresentava insustentável, passando a narrar o acontecido.”
“Cheguei em casa à noitinha e, de imediato, fui certificado por minha esposa de que, um rapaz havia roubado o nosso bichano e que por isso a garotada estava triste e polvorosa. Embora sem esperança, iniciei um trabalho de informações e horas depois conseguia identificar o ladrão de gatos, morador na Vila Santo Antônio, no final da Rua Santos. Bati à porta, uma senhora veio atender-me e, antes que ela dissesse qualquer coisa, pude avistar, sobre uma mesa, o couro de um gato que, por todos os santos, eu juraria ser o bichano da família. Sem sequer pedir licença fui invadindo a pequena casa, do mesmo passo que vendo emoldurado em suas paredes, numerosos couros de gatos. Meu espanto, porém, atingiu o ápice quando, descobrindo duas vasilhas, vi massa fermentada, carne moída... e um gato esquartejado.
Apertei os donos da casa e estes acabaram por confessar que, realmente, o rapaz comia gatos, mas que não fabricava coxinhas e tão pouco pastéis... Isto posto, não vi outra alternativa senão levar o fato ao conhecimento da polícia que compareceram ao local só horas depois, nada conseguindo constatar, a não ser um só couro preto de gato afixado à parede e uma parte de máquina de moer carne...”
E aí, estão servidos?
Fonte de Pesquisa:
- Acervo do Centro Cultural e Histórico Padre Albino
Foto: De maneira geral, a coxinha, tal como a conhecemos hoje, tem sua origem no século XIX, na região da Grande São Paulo, durante o processo de industrialização do Estado, pois era um produto saboroso, que saciava bem a fome e o preço cabia nos bolsos dos trabalhadores. Nesta foto, movimentação comercial em frente ao Mercado Municipal de São Paulo na década de 1910.
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