Com as mãos limpas

A higienização das mãos talvez seja o gesto mais simples e mais eficaz na prevenção de infecções. Ainda assim, permanece como um dos maiores desafios dentro dos serviços de saúde. Em pleno século XXI, com amplo acesso à informação e após a experiência traumática da pandemia de Covid-19, a dificuldade em cumprir essa prática básica revela um problema que vai além da falta de conhecimento técnico. A adesão insuficiente à higiene das mãos não decorre apenas de desinformação, mas de fatores culturais, comportamentais e institucionais. Em ambientes de alta pressão, como hospitais e unidades de atendimento, a rotina acelerada, o excesso de demandas e a falsa sensação de “controle” podem fazer com que profissionais experientes negligenciem etapas essenciais. Soma-se a isso a banalização do risco: aquilo que não é imediatamente visível — como microrganismos — tende a ser subestimado. Outro ponto crucial é a chamada “fadiga de protocolo”. Normas existem em abundância, mas sua repetição contínua, sem reforço educativo eficaz e sem engajamento das lideranças, transforma boas práticas em meras formalidades. Lavar as mãos deixa de ser um ato consciente de cuidado e passa a ser uma obrigação mecânica, muitas vezes ignorada quando não há supervisão direta. A pandemia deveria ter sido um marco definitivo. Durante o auge da crise sanitária, a higienização das mãos foi amplamente divulgada como medida central de proteção coletiva. No entanto, passado o momento crítico, observa-se um relaxamento progressivo dessas práticas. Isso evidencia uma característica preocupante: a memória social é curta, e comportamentos preventivos tendem a se dissipar quando o senso de urgência diminui. É preciso, portanto, ir além da orientação. Promover a cultura da segurança do paciente exige mudanças estruturais e simbólicas: liderança ativa, educação permanente, condições adequadas de trabalho e, sobretudo, responsabilização compartilhada. Higienizar as mãos não é apenas um protocolo — é um compromisso ético com a vida. Eventos como o Simpósio de Higiene de Mãos surgem, nesse contexto, como espaços fundamentais de reflexão e mobilização. Mais do que discutir técnicas, é necessário resgatar o significado desse gesto. A diferença entre o cuidado e o risco está nas mãos de quem assiste.

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Da Redação
Direto da redação do Jornal O Regional.