Coleção 'Uma chamada perdida'
A Obras-primas do Cinema acaba de lançar em DVD a trilogia “Uma chamada perdida”, com os três filmes de horror japonês da franquia realizados entre 2003 e 2006. No box, em disco duplo, vem quatro cards colecionáveis e 1h de extras, como making of, entrevistas com elenco e diretor, cenas deletadas e finais alternativos. Confira abaixo textos meus sobre os filmes:
Uma chamada perdida
O primeiro filme da trilogia, dirigido pelo mestre da violência gráfica japonês Takashi Miike, é uma obra que sintetiza o medo tecnológico do início dos anos 2000. A premissa é simples e perturbadora: jovens começam a receber mensagens de voz no celular vindas do futuro, anunciando a própria morte. Miike, diretor dos violentos “Audição” (1999) e “Ichi, o assassino” (2001), constrói uma atmosfera de paranoia crescente, explorando o celular como um objeto cotidiano que se transforma em um tormento. A narrativa mistura elementos sobrenaturais com crítica social, refletindo a alienação, além da fragilidade dos laços humanos em uma sociedade que começava a ficar hiperconectada (o filme é e 2003, bem no início da expansão do celular). O filme não se apoia apenas em jumpscares, mas em uma sensação constante de inevitabilidade, como se cada toque do celular fosse um presságio. A estética fria e os enquadramentos claustrofóbicos, com cenas de aparição de fantasmas medonhos, reforçam o desamparo dos personagens, enquanto o espectador é convidado a refletir sobre o impacto da tecnologia na vida moderna. Roteiro de Minako Daira adaptado do romance de Yasushi Akimoto – a história daria origem a duas continuações japonesas e a um remake americano, de mesmo título, de 2008.
Uma chamada perdida (Chakushin ari). Japão, 2003, 112 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Takashi Miike. Distribuição: Obras-primas do Cinema
Uma chamada perdida 2
A continuação de “Uma chamada perdida”, realizada dois anos depois, expande o universo criado por Takashi Miike, agora sob a direção de Renpei Tsukamoto (especializado em seriados japoneses). O filme mantém a premissa das chamadas fatais, mas desloca a ação para Taiwan, ampliando o alcance da maldição telefônica e sugerindo que o fenômeno transcende fronteiras culturais. A narrativa é mais investigativa, com personagens tentando compreender a origem das ligações e suas conexões com traumas familiares – tudo envolve uma professora do jardim de infância, chamada Kyoko, que ao visitar o namorado no restaurante onde trabalha, escuta o som estranho no celular, aquele que um ano atrás aterrorizou pessoas; e a partir daí, quem ouve o som termina morto. Menos impactante que o anterior, o segundo filme aprofunda a mitologia introduzindo dimensão mais trágica, onde o horror não é apenas sobrenatural, mas também humano: abusos, segredos e ressentimentos que ecoam através das gerações. A direção aposta em um ritmo mais lento, privilegiando a construção de mistério em vez de sustos imediatos. Essa escolha dá ao filme um tom melancólico, que reforça a ideia de que o verdadeiro terror está na repetição de padrões de dor e violência. Ao mesmo tempo que o longa amplia o escopo da narrativa, não perde de vista sua crítica social. O filme já tinha saído em DVD no passado
Uma chamada perdida 2 (Chakushin ari 2). Japão, 2005, 105 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Renpei Tsukamoto. Distribuição: Obras-primas do Cinema
Uma chamada perdida: A vingança
O terceiro filme, dirigido por Manabu Asou, encerra a trilogia da cinessérie de horror japonês com uma abordagem mais direta e comercial. A trama gira em torno de uma jovem que sofre bullying na escola e se utiliza da maldição telefônica para se vingar. O filme aposta em uma estética mais próxima do cinema de horror adolescente, com ritmo acelerado e maior uso de efeitos visuais. Apesar de sacrificar parte da atmosfera sombria dos anteriores, o terceiro longa oferece momentos de tensão eficazes – parte da história ocorre agora na Coreia do Sul (lembrando que os anteriores eram respectivamente no Japão e em Taiwan), e uma conclusão que tenta dar sentido ao ciclo das mortes. O destaque está em humanizar a entidade por trás das chamadas, revelando motivações ligadas ao sofrimento e ao desejo de vingança. Ainda que não alcance a complexidade psicológica do primeiro filme, cumpre o papel de encerrar a franquia de cinema com certa sofisticação, oferecendo ao público jumpscares, cenas de medo e uma reflexão sobre bullying na escola. A trilogia foi um marco do horror japonês contemporâneo, que transformava o celular em símbolo de medo e isolamento – depois dele muitos filmes imitaram essa premissa, inclusive dois anos depois houve um remake americano muito ruim de “Uma chamada perdida” (2008, com Edward Burns, Shannyn Sossamon e Ray Wise).
Uma chamada perdida: A vingança (Chakushin ari final). Japão/Coreia do Sul, 2006, 109 minutos. Terror. Colorido. Dirigido por Manabu Asô. Distribuição: Obras-primas do Cinema
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