Casos misteriosos da bruxa catanduvense
Na semana passada, esta coluna trouxe um caso intrigante envolvendo uma suposta abdução alienígena em Catanduva, episódio que reacendeu a curiosidade dos leitores e o gosto local por histórias envoltas em mistério. Nesta edição, a viagem continua. A coluna resgata uma série de acontecimentos inexplicáveis registrados na cidade ao longo da década de 1990, casos que, à época, provocaram espanto, boatos e diferentes interpretações. Muitos desses episódios acabaram sendo associados, de forma simbólica, à figura da “bruxa catanduvense” — uma referência ao slogan que consagrou Catanduva como a Cidade Feitiço, reforçando o imaginário místico que passou a cercar esses relatos.
Um dos primeiros casos nessa linha foi um incidente, ocorrido em 1993, onde, por consequencia de uma forte chuva, um raio caiu sobre a cabeça da estátua do Cristo Redentor, que se encontra no Cemitério Nossa Senhora do Carmo, destruindo-a.
O prefeito, na ocasião, era o Dr. Carlos Eduardo de Oliveira Santos que contratou o Prof.º Luiz Dotto para fazer a recuperação da cabeça do Cristo, levando 60 dias para executar a obra.
Na época, houve uma série de rumores de que o raio nada mais era do que uma demonstração divina contra o logotipo da administração municipal – uma bruxinha – e também pela utilização do apelido Cidade Feitiço, por qual Catanduva é conhecida.
A logomarca
O tema foi tratado em um TCC – Trabalho de Conclusão de Curso – elaborado pela jornalista Florence Emanuelle Manoel, intitulado O Feitiço na Cultura Catanduvense.
Florence destaca em seu trabalho que “(...) em diversas culturas e períodos históricos, a ideia de feitiço sempre teve a provocação como característica (...) Esse termo integra a cultura de Catanduva desde os anos 40, quando ficou conhecida pelo cognome Cidade Feitiço, devido ao notório discurso do jornalista Nair de Freitas, que enfatizava o caráter acolhedor dos habitantes do município, assim como o fascínio do local exercido sobre seus visitantes”.
Com o passar do tempo, a partir do termo “feitiço”, a figura da bruxa tornou-se símbolo de várias instituições catanduvenses, como o Campo do Grêmio (Caldeirão da Bruxa), a FAMECA, a revista Feiticeira, entre outros.
Nesse sentido, a própria Prefeitura Municipal de Catanduva adotou a feiticeirinha como símbolo oficial do município durante a gestão do prefeito municipal Carlos Eduardo de Oliveira Santos (1993-1996).
De acordo com Florence, “(...) a inserção da imagem em carros oficiais do município, uniformes de funcionários públicos e outdoors trouxe a bruxa para mais perto da população, mobilizando a opinião pública e levantando questionamentos acerca do conceito de feitiço, que a originou”.
Os fatos horripilantes
Por coincidência do destino, ou não, 1992 e 1993 foram marcados por uma série de incidentes trágicos que chamaram a atenção da população catanduvense, considerados estranhos pela sua natureza e pela proximidade das datas das ocorrências.
Florence retrata-os em seu trabalho: “1 – Incêndio na Prefeitura, que destruiu parte do Arquivo Municipal; 2 – princípio de incêndio na Câmara Municipal de Catanduva, que danificou parte do setor de protocolo, além dos setores administrativos e de atendimento; 3 – a descoberta de uma ossada humana em frente à Igreja Matriz, no dia 12 de agosto de 1993 (a população atribuiu a aparição dos restos mortais não identificados a rituais macabros próprios de seitas satânicas, conforme noticiado repetidas vezes em jornais da época. A Polícia Civil investigou o caso, trabalhando com a hipótese de que o esqueleto tivesse sido furtado de algum centro de pesquisa, porém, nenhuma instituição deu queixa do sumiço, o que acentuou o mistério. Não se sabe ao certo a intenção dos responsáveis pelo ato: brincadeira, vandalismo ou magia negra); 4 – Em 19 de janeiro de 1992, a trágica morte de Gustavo Rodrigues Esteves, de 16 anos. Em uma madrugada, junto a um grupo de garotos, pulou o muro do Cemitério Nossa Senhora do Carmo, situado na região central de Catanduva. O rapaz teria se pendurado em uma cruz, que sucumbiu ao seu peso. A vítima veio a falecer de traumatismo craniano; 5 – Em 21 de janeiro de 1993, um raio atingiu a estátua do Cristo Redentor e a descarga elétrica pulverizou a cabeça do Cristo. Muitas pessoas interpretaram a “decapitação do Cristo” de maneira metafórica, aludindo ao declínio do Cristianismo na Cidade Feitiço”.
Repercussões
Todos esses incidentes ocorridos em 1992/1993 trouxeram grande movimentação entre a população catanduvense, que buscavam as mais estranhas explicações sobre o ocorrido.
Uma das principais afirmações, principalmente entre evangélicos e católicos, era que as tragédias estavam acontecendo por consequencia da utilização da logomarca da bruxa, que estava sendo usada pela Prefeitura Municipal de Catanduva.
Alguns artigos até chegaram a seres publicados em jornais locais, criticando a logomarca e o slogan Cidade Feitiço, como o artigo “Feitiço? Por quê!!!”, publicado em O Jornal, de 17 de março de 1993. Nele, o pastor Pedro Navacon ataca a logomarca da bruxa, bem como o slogan da Cidade Feitiço e ainda defende: “(...) por que não pensarmos em substituir o feitiço que tantas maldições têm trazido à Catanduva, que poderia ter como slogan, por exemplo, “a cidade benção”, a “cidade sorriso”, a “cidade esperança”, a “capital do trabalho”, etc?”.
Como resposta a esse descontentamento, a prefeitura propôs, no ano de 1994, a realização de um plebiscito para determinar a permanência ou não da logomarca feiticeira. A vitória saiu pelo lado da bruxa: a logomarca continuaria em Catanduva, nossa querida Cidade Feitiço.
Fonte de Pesquisa:
- “O Feitiço na Cultura Catanduvense”, de autoria de Florence Emanuelle Manoel, como forma de TCC para o curso de Jornalismo, do IMES/FAFICA, apresentado em Novembro de 2011.
Foto: Em 21 de janeiro de 1993, um raio atingiu a estátua do Cristo Redentor, localizado no Cemitério Nossa Senhora do Carmo, destruindo sua cabeça. Muitos acreditaram ser um sinal divino.
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