Cabine de memórias
O telefone público, aquele icônico "orelhão" verde ou amarelo – que depois ganhou outras cores, está se despedindo do cenário brasileiro por decisão da Anatel. Para muitos, pode parecer apenas um objeto obsoleto, um poste de metal e plástico que perdeu sua utilidade para os smartphones que hoje cabem em nossos bolsos. Mas para gerações de brasileiros, aquele disco giratório ou teclado, protegido por sua concha acústica, era muito mais que um meio de comunicação: era um portal de urgência, alívio e conexão. Quantas histórias não foram contadas através dele? Quantas declarações de amor apressadas, quantas notícias de emergência transmitidas com moedas no bolso, quantas ligações cruciais para marcar um encontro, confirmar uma chegada ou pedir ajuda em um momento de desespero? O orelhão era a democracia da comunicação em cada esquina, um ponto de apoio público que garantia que ninguém ficasse incomunicável, independentemente de ter ou não um telefone particular. Ele nos ensinou a esperar, a ter paciência na fila, a calcular o troco para mais um minuto de conversa. Era o ponto de encontro marcado, o lugar onde o jovem, sem acesso à tecnologia, podia se conectar com o mundo. Hoje, a palma da nossa mão abriga um supercomputador que nos conecta instantaneamente a qualquer lugar do planeta. A evolução tecnológica é inegável e trouxe uma conveniência que beira o milagre. No entanto, ao desativar o orelhão, celebramos também a jornada que percorremos. É um adeus agridoce: lamentamos a perda de um símbolo social que serviu com lealdade por décadas, mas nos alegramos pela conquista de ter o mundo inteiro — e a voz de quem amamos — sempre ao alcance de um toque. O orelhão se aposenta, mas as memórias das conversas que ele guardou permanecerão vivas em nossa história coletiva.
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