Brilho Letal: A Tragédia do Césio-137 em Emergência Radioativa

Lançada pela Netflix, Emergência Radioativa é uma minissérie de drama histórico que mergulha no caos e desespero provocados pelo acidente com o Césio-137 em Goiânia, em 1987. O acidente nuclear tem ecos que refletem em outra minissérie, Chernobyl, este ocorrido numa usina nuclear na Ucrânia, então parte da União Soviética. O caso brasileiro, no entanto, é considerado o mais sério do mundo fora de uma usina nuclear.

A narrativa guia o público por duas frentes complementares. De um lado, o drama angustiante das famílias goianas, gente simples, expostas à radiação sem o menor conhecimento do perigo. Do outro, a corrida contra o tempo dos cientistas, liderada pelos físicos Márcio (Johnny Massaro) e Orenstein (Paulo Gorgulho). Eles não são pessoas reais específicas, mas amálgamas que representam as dezenas de físicos, médicos e técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que atuaram na linha de frente em Goiânia.

O incidente nuclear teve origem quando dois catadores de material reciclável invadiram as ruínas irresponsavelmente abandonadas do Instituto Goiano de Radioterapia. Eles encontraram um aparelho médico desativado e o desmontaram para vender as peças. O equipamento foi comprado pelo dono de um ferro-velho, Enevildo (Bukassa Kabengele). Ao forçar a abertura da pesada cápsula de chumbo que envolvia a máquina, ele se deparou com um pó branco que emitia uma fascinante luz azulada no escuro: tratava-se do cloreto de Césio-137, elemento altamente radioativo.

Acreditando ser algo valioso ou sobrenatural, levou o pó para casa e o exibiu para familiares e vizinhos. Pessoas passaram o material na pele, e o irmão dele levou fragmentos para sua filha, de 6 anos, que brincou com a substância e ingeriu partículas ao comer um ovo cozido.

Dias se passaram até que as vítimas começassem a sofrer tonturas, diarreias, vômitos e queimaduras na pele. A esposa de Enevildo, Antonia (Ana Costa), suspeitou que a doença generalizada vinha da "peça brilhante". Ela resgatou a cápsula e a levou de ônibus até a Vigilância Sanitária de Goiânia. A atitude heroica salvou milhares de vidas, mas não impediu a contaminação direta de centenas de pessoas e a morte de quatro vítimas nos dias seguintes — incluindo ela mesma e a sobrinha. Os nomes também são fictícios. 

A superprodução brasileira é fruto de um cuidadoso trabalho de reconstituição de época e ciência, com direção geral de Fernando Coimbra (O Lobo Atrás da Porta), com colaboração do diretor Iberê Carvalho.

Quase 40 anos depois, Goiânia se modernizou consideravelmente. Para emular a cidade em 1987, as filmagens ocorreram entre junho e dezembro de 2025 em cidades do estado de São Paulo, como Osasco, Sorocaba e Santo André.

Diferente de desastres como o de Chernobyl, onde a explosão desencadeou o desespero e o isolamento imediato, em Goiânia as vítimas conviveram intimamente com o Césio-137 por mais de 15 dias de forma pacífica e silenciosa até as autoridades descobrirem a tragédia. As 6 mil toneladas de resíduos radioativos gerados pela limpeza da cidade (incluindo solo, casas demolidas e roupas) estão enterradas em Abadia de Goiás sob camadas de chumbo, concreto e brita. O material só estará totalmente seguro em um período de 200 a 300 anos.

Esta não é a primeira vez que o audiovisual conta o pesadelo de Goiânia. Apenas três anos após o desastre, o diretor Roberto Pires lançou o filme "Césio 137 - O Pesadelo de Goiânia" (1990).

Diferente da série atual, o filme de 1990 teve um formato cru de docudrama, focado muito mais na ignorância fatal dentro do ferro-velho, com um elenco de nomes famosos da TV brasileira como Nelson Xavier, Joana Fomm e Stepan Nercessian e, curiosamente, até com a participação de algumas vítimas atuando como figurantes.

Autor

Sid Castro
É escritor e colunista de O Regional.